O Monstro na Banheira.

     O cineasta mexicano Guillermo del Toro é atualmente o mais festejado entre os diretores que cultivam o fantástico, um gênero que tem sido abastardado por trabalhos que ilustram sessões de tortura e mutilação, e parecem feitos para deliciar sádicos com suas doses brutais de violência. A geração surgida nos anos oitenta não deixou herdeiros. Wes Craven faleceu, e John Carpenter, o melhor de todos, está aposentado. Del Toro tem cultura fílmica e pretensões artísticas. É o autor de duas obras que, com o tempo, se tornarão modelo entre as produções que tem o suspense e o medo com pano de fundo. “A Espinha do Diabo” é um ensaio a respeito da solidão infantil e da ausência de perspectivas em um ambiente tumultuado pela violência. O orfanato assombrado pelo fantasma de uma criança assassinada é um microcosmo do ambiente que o circunda e a reflexão sobre o que é um fantasma fecha a narrativa com perfeição.  Em “O Labirinto do Fauno“, a criança volta a ser o foco principal, desta vez construindo um mundo de fantasia para aliviar seu sofrimento. Os seres mágicos e assustadores que o habitam são uma maneira de  enfrentar a realidade  que a circunda. Ambas as películas se passam durante a guerra civil espanhola, o conflito que antecipou a carnificna que eclodiria com a Segunda Guerra Mundial.  São o melhor de Del Toro até o momento.

     O diretor está de volta com o elogiado e premiado “A Forma da Água”. Novamente a solidão assola a apersonagem principal, uma faxineira que não fala. O pano de fundo são os anos cinquenta, atormentados pela paranóia da guerra fria. O modelo escolhido foi “O Monstro da Lagoa Negra“, realizado em 1954 por Jack Arnold, um filme menor que com o tempo virou um “sucesso de estima”, encontrando admiradores mesmo que ostente esparsas qualidades.  E o modelo afetou Del Toro.

 

     Ao contrário de seus filmes espanhóis, o diretor não consegue transcender o narrado. As implicações do roteiro não refulgem na tela. Claro, Del Toro é muito mais cineasta que Arnold e, mesmo em um momento menor, faz um filme com qualidades. O sexo maquinal que a protagonista exercita todas s manhãs na banheira, o fascínio que a criatura aquática, também ela incapaz de se comunicar, exerce sobre a jovem dão a narrativa um tom poético, que é ressaltado por cenas de musicais clássicos que o desenhista publicitário assiste na televisão.

     E há a figura do vilão, um arquétipo que chega a ser risível em alguns momentos. Tanto ele quanto o militar são modelos mal acabos, quase títeres que o relizador criou para justificar a história. Falta-lhes a dualidade que os transformaria em personagens de carne e osso. existem também as concessões ao politicamente correto nas figuras do desenhista e da colega de trabalho. E quanto a criatura, este ser que se rejenera e possui poderes mágicos, não há muito a dizer. Ele está distante do fauno e do fantasma mirim, estes sim, exemplo do melhor cinema de Del Toro.

 

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2 comentários Adicione o seu

  1. Nelson Safi disse:

    Achei decepcionante o filme, principalmente porque esperava encontrar algo no mesmo nível, ou próximo, do “Labirinto do Fauno”.

    1. Júlio disse:

      Salve Almirante. Muito bom saber que continuas meu leitor. Temos que nos encontrar para colocar a conversa em dia.

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