Os Invisíveis.

     Há cineastas que são reconhecíveis apenas por um  plano de seus filmes. Alfred Hitchcock e Federico Fellini  são exemplos maiores. Suas escritas cinematográficas eram tão pessoais que não deivavam dúvida a quem pertenciam. O mesmo se pode dizer do realizador filandês Aki Kaurismaki. Longe de possuir a estatura dos dois gênios mencionados, ele produz um cinema de características muito pessoais e que se destaca na produção atual. Seus trabalhos exibem uma ambientação quase atemporal. Se os temas são atuais e enfocam a realidade de migrantes europeus e africanos, a ambientação nos lembra o mundo perdido dos anos de 1950 e 60 do século passado. Seus personagens falam pouco, a dramaticidade é mínima e ainda assim, suas imagens destilam humanismo e solidariedade.  É o que vemos neste excelente “O Outro Lado da Esperança“.

     Um fugitivo da guerra da Síria chega clandestinamente a Finlândia em busca de asilo. Inicialmente, ele tenta legalizar sua permanência no país por meios governamentais, mas no momento em que a burocracia se volta contra ele, torna-se um clandstino, até ser acolhido pelo dono de um restaurante e seus funcionários. O enredo é mínimo e a emotividade vem das pequenas cenas e na forma como o realizador encadeia os diferentes personagens. Tanto os filandeses quanto o sírio buscam um recomeço. São pessoas que perderam seus caminhos frente a crise econômica que praticamente quebrou o país anos atrás. O que resta é o apoio que, de maneira seca e quase muda, prestam um ao outro.

     Kaurismaki não recusa o humor, como nas seqüências em que o restaurante busca um novo estilo para atrair clientes, nem o suspense, desenvolvido com admirável sutileza durante as cenas do jogo de cartas. Mas o riso que ele provoca  vem daqueles seres de aparência estranha e suas reações tão espontâneas quanto inesperadas. O mesmo ocorre com a tensão, construída quase com despretensão, mas efetiva em seus efeito. E há ainda a música, uma mistura de rock e baladas cantadas em filandês e executadas com instrumentos antiquados (a guitarra de caixa quadrangular, como a utilizada por Bo Diley nos primórdios co rytm’a’blues, o chocalho que serve também de baqueta para o baterista de um dos grupos, e o violonista canhoto que toca com as cordas na posição regular, ao invés de invertê-las como é comum) e que reforçam este universo tão particular.

Nestes tempos de vulgarização das imagnes, um cinema como o de Kaurismaki é um bem precioso. Seu trabalho anterior aqui exibido “O Porto“, já era admirável e “O Outro Lado da Esperança” consolida a importância dos seus filmes. Se o ritmo a a maneira de se conduzir dos personagens é, num primeiro momento bastante peculiar, em pouco tempo, a sensibilidade da realização nos coopta para aquele universo e nos deixamos fascinar pela arte personalíssima do cineasta.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s