O Resumo de todos os Medos.

Em 1986, Stephen King publicou um de seus mais famosos trabalhos, o romance “IT“.  Um calhamaço de 1138 páginas na edição de capa dura no original.  No Brasil o livro foi publicado pela extinta  Francisco Alves Editora, dentro de sua maravilhosa coleção “Mestres do Horror e da Fantasia” e recebeu o título de “A Coisa“. A ação transcorria em dois períodos com quase trinta anos de intervalo e era narrada concomitantemente pelo autor até que os momentos se encontravam dando fecho a narrativa. O estilo coloquial de King conduzia o livro com fluidez, tornando a leitura sedutora. Nenhum autor de histórias de terror e suspense imaginara o que ele havia pensado para este trabalho. King já havia escrito ” Christine“, onde criara um automóvel mal assombrado, mas aqui, ele foi mais longe. Deu vida a Derry, uma imaginária cidade  do estado do Maine, estado natal do autor, amaldiçoada desde a sua fundação, e que atraía todos os monstros possíveis. Além disso, transformou a figura do palhaço de circo em um ser diabólico, que se nutre dos medos e dos anseios humanos.

A ação transcorria nos anos 50 e 80 do século passado, possibilitanto ao autor uma visita a sua infância e adolescência. A América pre-Vietnam, um mundo que vendia prosperidade e paz, exibia seu lado sinistro. Havia os valentões sempre dispostos a humilhar os mais fracos, os pobres, excluídos do sonho americano, e a violência familiar, encoberta de diversas formas. Estes medos eram explorados pelo ecritor que tornava o cotidiano dos personagens tão real na sua aparente banalidade que, quando o palhaço demoníaco surgia, era incorporado ao universo do romance sem estranhamento. Seus atos estavam de certa maneira previstos nas maldades humanas que infectavam a rotina dos personagens. Não era sem razão, os amigos intitulavam seu grupo “o clube dos perdedores”. Um gago, um gordo, uma menina que fugia constantemente do pai abusador, um filho de uma mãe apdominadora e um negro, que naqueles dias possuía um universo limitado na sociedade americana eram alguns dos integrantes. E  justamente estes marginalizados que se levantavam contra o Mal.

 

Chega as telas com enorme sucesso a primeira versão cinematográfica do livro, que mantém o título do original literário e retrata a primeira parte da história, passada no início da adolescência dos personagens. O diretor Andy Muschietti alterou a época onde os fatos se iniciam e trocou os anos de 1950 pelos de 1980, mirando um segundo filme, que deverá se passar nos dias de hoje. A narrativa mistura uma crônica de adolescência aos recursos tradicionais da narrativa de terror. Sustos, aparições de monstros, e nem de longe possui o brilho de “O Iluminado“, de Stanley Kubrick, capaz de criar uma atmosfera de pavor a partir dos ruídos de um triciclo pilotado por um menino através dos corredores de um hotel deserto. Mas ainda assim o filme se sustenta, muito devido ao argumento original e alguns acertos da direção, como o da configuração do palhaço. Se a narrativa reserva sustos, falha em provocar medo. Há esquematismo na configuração dos personagens e uma das audácias de King no livro é ignorada no filme, certamente temendo retaliações nestes tempos “politicamente corretos”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s