Tormento e Redenção.

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     Personalidades autodestrutivas sempre atraíram o ficcionistas. Literatura, Teatro e Cinema os utilizaram em muitas oportunidades para criar opras-primas. O doutor Rodrigo Cambará, personagem de ” O Retrato” de Érico Veríssimo, livro que integra a trilogia que forma “O Tempo e o Vento” é um exemplo próximo a nós. O alcoólatra de “Vício Maldito“, clássico dirigido por Billy Wilder é outro, assim como muitos personagens das peças de Nelson Rodrigues. Em “Bingo, o Rei das Manhãs“,  Daniel Rezezende faz uma excelente estréia na direção, mas aqui descrevendo fatos reais. Montador de filmes como “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite I e II” ele impregna sua narrativa com um ritmo ágil que muitas vezes transcorre como se estivéssemos assistindo à um filme de ação.

     O palhaço Bozo, aqui rebatizado de Bingo, foi sucesso na televisão brasileira nos anos de 1980. Oriundo de um original americano e adaptado ao padrão brasileiro, se tornou um imbatível sucesso. É sobre o preço dessa vitória que o filme reflete. Devido a termos contratuais, o ator que interpretava o palhaço devia permanecer incógnito. Em um mundo ainda desprovido de câmeras de vigilância espalhadas por prédios e ruas, a estratégia funcionava. A medida que o sucesso crescia, seu intérprete, ingeria mais drogas e bebida. Do seu sucesso desfrutava apenas do lado financeiro, o que lhe angustiava e oprimia. Filho de uma atriz de sucesso no passado,  Armando tinha pretenções artísticas e desejava ser reconhecido por seu trabalho.  A decadência é inexorável até que uma quase tragédia o redime.

 

  Daniel Rezende cria um personagem trágico que ao mesmo tempo é um pai amoroso e um homem desprovido de limites. Seu contraponto é a diretora do programa que tenta vencer profissionalmente sem abrir mão de suas convicções pessoais. Os desafios e irreverências do intérprete não passam de uma forma de reação frente as dificuldades que enfrenta. Existem grandes momentos no filme, como a gota de sangue que escorre do nariz do palhaço em cena aberta, os os jogos de sombra que abrem a narrativa e  selam a reconciliação entre pai e filho e os delírios do personagem em momentos de angústia ou abuso de drogas.

     O filme é baseado na vida de Arlindo Barreto, filho da atriz Márcia de Windsor, que iniciou sua vida profissional trabalhando em pornochanchadas e filmes da Boca do Lixo, mas que busvava uma oportunidade de mostrar seu talento e recursos. Os créditos finais mostram o verdadeiro destino do personagem real e sua vida atualmente.

     Destaque para a direção de atores que extrai do elenco grandes interpretações, principalmente de Vladmir Brichta que vive o protagonista. Por este filme pode-se esperar o melhor de Daniel Rezende daqui para frente. Junto com Fernando Coimbra, o diretor de “O Lobo Atrás da Porta” é um nome para ser seguido com atenção dentre os novos cineastas brasileiros.

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