O Símbolo Amaldiçoado.

     Em 1995 o escritor argentino Tomás Eloy Martínez publicou “Santa Evita“, um romance que foi sucesso mundial. O livro não era uma biografia de Eva Duarte Perón mas do seu cadáver. Símbolo maior do regime populista de Juan Domingo Perón, morreu aos 33 anos de um câncer estomacal. Idolatrada pelos partidários do regime, ela lançava seus esforços para os mais necessitados, que ela chamava de “descamisados”. Seu falecimento comoveu o país e durante dias seu caixão foi visitado por aqueles a quem ela jurara proteger e ajudar. Tamanho ícone não poderia ser sepultado. Perón contratou na Espanha um famoso embalsamador para ocupar-se da defunda. Seu cadáver, após o tratamento de preservação, foi colocado em um caixão com tampa e laterais de vidro e ficava exposto para visitação em uma sala da Central Geral dos Trabalhadores em Buenos Aires. Com a queda do regime peronista dois anos após, através de um golpe ce estado, os novos mandatários decidiram se livrar daquele simbólo incômodo. Não a sepultaram, temendo que estariam apenas trocando o local de adoração. Com isso se inicioua odisséia macabra  do cadáver de Eva. Ele passou por vários locais em Buenos Aires, sendo inclusive, escondido atrás da tela de um pequeno cinema de bairro, até ser contrabandeado, com a ajuda da Igreja Católica, para a Itália, e enterrada sob um nome falso. Somente em 1974, com o retorno de Perón ao poder, o corpo retornou a Argentina e foi sepultado no cemitério do bairro da Recolettta, onde permanece até hoje. O livro, apesar do sucesso, nunca chegou as telas.

     Mas agora o diretor Pablo Agüero resolveu contar prte desta história a partir de um roteiro autômano que não tem o livro de Eloy Martinez como base. “Eva não Dorme” é estruturado a partir das reminiciências de um militar, vivido por Gael Garcia Bernal, que relembra a trajetória da personagem. Suas falas são repletas de ódio e desprezo pela mulher que representa e defende o que ele  repudia. Agüero alterna trechos de documentários sobre momentos chaves da história argentina recente com encenações, que divide em títulos, como se estivéssemos assistindo os atos de uma peça teatral. O que vemos na tela não é o cinema argentino na sua forma mais apreciada. Não há o humor misturado a tragédia nem o suspense. Seu universo cinematográfico se aproxima do desenvolvido por Lucrécia Martel, a realizadora de”O Pântano“.  Mas a combinação de documentário com encenações torna a narrativa atraente e reflexiona sobre o pensamento  político latino americano. As seqüências que narram captura de um integrante do regime que derrubou Perón mostram como as lutas pelo poder e modelo de país pouco se alteraram em mais de 50 anos. O diálogo entre o general aprisionado e a militante comunista ilustram as contradições de ambos os lados e as fragilidades de convicções e alianças. As cenas finais, tanto as verdadeiras quanto as encenadas, fecham com clareza esta mistura de teatro, documentário e relato ficcional que em momento algum deixa de ser cinema em forma pura.

     “Eva Não Dorme” é outra mostra da força do atual cinema argentino. O filme é estruturado sobre um roteiro sólido onde se sobressai a dramaticidade. Não existem palavras de ordem ou símbolos, os personagens transpiram realidade, e sua falas, os  pensamentos de gente de carne e osso, ao invés de títeres de idéias políticas. E por mais fantásticos que os acontecimentos pareçam, eles espelham o que se passou.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s