As Palavras.

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Num tempo em que os leitores minguam, e muitos afirmam que a literatura, como a conhecemos hoje, deixará de existir, um filme como “O Mestre dos Gênios” é uma muito bem-vinda surpresa. Ele relata, principalmente, o relacionamento entre o editor Maxwell Perkins e o escritor Thomas Wolfe. Perkins é uma figura lendária. Foi o primeiro a editar Scott Fitzgerald, Hemingway e foi o descobridor de Wolfe. Enquanto Fitzgerad e Hemingway eram autores “prontos,” o talento de Wolfe era prisioneiro de sua prosa caudalosa, cujos originais chegavam a ostentar cinco mil páginas. Perkins conduziu o escritor para um caminho mais racional, onde suas longas narrativas se tornassem publicáveis. Wolfe é um escritor único, dono de um texto poético e autobiográfica, que tinha entre seus admiradores ninguém menso que William Faulker, que o considerava o melhor escritor de sua geração.
O diretor Michael Grandage é egresso do teatro e da ópera, e seus filmes, mesmo que valorizem as palavras, tem a imagem como fio condutor, e é dela que ele se utiliza para narrar. A seqüência inicial, que mostra, primeiro os pés das pessoas caminhando pelas ruas, até focar nos sapatos de Wolfe, e só então descortinando seus rosto, é prova disso. O encontro entre o autor e o editor é um nascimento para o primerio e um renascimento para o outro. Perkins não vai apenas lapidar o artista, vai tentar moldar o ser humano afogado no egoísmo tão comum aos talentos superiores, que não raro se transforma em maldade, como bem exemplifica a seqüência do jantar com Zelda e Scott Fitzgerald.

O retorno de Wolfe da Europa, o encontro no porto, e a visita a primeira morada, são como um acerto de contas com os tempos mais difíceis e o descortinar de um novo universo, como demostra a paisagem vista do teto do prédio. Mas, ao mesmo momento em que algo novo se inicia, um ciclo se fecha, e o mal surge do bem, como muitas vezes acontece. A visita a personagem vivida por Nicole Kidman deixa bem claro o final de um encanto. Wolfe é desmascarado como ser humano. Ela o acusa de ser escritor o tempo todo, tratando as pessoas ao ser redor como se fossem seus personagens. Ela é uma figura ao mesmo tempo amarga e lúcida, cujo contrapondo é Enerst Hemingway, que praticamente repete a visão que ela tem sobre Wolfe, durante o encontro com Perkins no porto. Claro, Hemingway é outro egocêntrico. E esse defeito só abandona Fitzgerald quando o talento se vai. Seu encontro com Wolfe é premonitório.
Não estamos frente a um filme amargo, ao contrário, há entusiasmo em muitas de suas imagnes. Os momentos em que Wolfe e Perkins trabalham juntos são entusiasmantes. Os trechos lidos em voz alta revelam o lirismo da prosa de Wolfe, em seus intermináveis parágrafos, num quase ininterrupto fluxo de memória. É o cinema, esta arte de síntese, nutrindo-se e prestando reverência a palavra, mas o fazendo de forma pura, via as imagens e os planos, seus meios próprios de expressão.

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