Elvis não Morreu.

Floriano olhou a imagem no espelho e sorriu. Aplicou o creme para retirar a maquiagem, depois limpou-o cuidadosamente com um lenço de papel. Não necessitava exagerar na pintura. Seu rosto, apesar dos mais de setenta anos, era pouco enrugado e a flacidez estava habilmente disfarçada. Passou as mãos pela cabeleira, tão basta como na juventude, as costeletas grossas, ambos totalmente escuros graças a tintura de qualidade que seu cabeleiro utilizava. Ergueu-se e contemplou a silhueta o que também o agradou. Ainda tinha alguns bons anos de trabalho pela frente. E podia dizer que estava no auge. Estava na terra do Rei, e fazendo sucesso. Bateram à porta do camarim e Floriano disse em inglês para que entrassem.
O homem era tão alto quanto Floriano, forte, usava óculos escuros e, aparentemente, era mais velho.
— Desculpe incomodá-lo, mas queria cumprimentá-lo pelo show. Foi o melhor que já presenciei.
— Obrigado — disse Floriano.
O visitante era claramente americano pelo sotaque. Ele sorria, e as partes do seu rosto que os óculos deixavam à mostra exprimiam satisfação, pensou Floriano.
— Fazem anos que acompanho covers de Elvis e o senhor é o melhor que já vi. Me disseram que o senhor é brasileiro, verdade?
— Sim. Do sul do Brasil. Lá o Rei tem muitos fãs. Mas com o tempo, passei a fazer shows por todo o país. Imagine, fiz uma performance em meio a selva amazônica. Foi inesquecível.
— Eu já assisti a muitos espetáculos, alguns mais luxuosos que o seu, mas como intérprete, o senhor é disparado o melhor.
Floriano convidou o visitante para sentar e ofereceu uma bebida.
— Obrigado. Parei de beber em 1978. Também não como mais carne nem doces. Também deixei de fumar.
— E por que esta transformação — perguntou Floriano.
— Decidi renascer, isso depois de ter morrido para o mundo.
O que ele queria dizer, pensou Floriano. Seria mais um desses sujeitos estranhos que apareciam ao final de alguns espetáculos? Pensara que no exterior isso não acontecesse.
— Que coisa estranha — retrucou Floriano sem saber o que dizer.
— Minha vida depois de alguns anos tornou-se insuportável, precisei “morrer” para continuar vivendo. Foi complicado, mas no final, terminou dando certo. E, o que se pode chamar de, “final feliz”, depende de como a noite de hoje terminar.
O sujeito era louco. Floriano precisava dispensá-lo. Levantou-se, e estendeu a mão.
— Foi um prazer conhecê-lo e muito obrigado pelos elogios.
O homem não se moveu. Apertou a mão de Floriano e seus lábios se alargaram, como se aquele toque confirmasse seus pressentimentos.
— Eu também gostei muito de conhecer o senhor. Eu poderia dizer que me senti,”orgulhoso”.
— Como assim? — perguntou Floriano.
Ele retiou os óculos e seus olhos revelaram uma expressão quase juvenil. Floriano ergueu-se e acendeu o lustre do teto do camarim, que até aquele momento recebera apenas a claridade das lâmpadas ao redor do espelho. Encarou o homem e recuou até tocar a mesa.
— O senhor não me falou o seu nome — disse Floriano com voz trêmula.
— Eu tenho muitos nomes — disse o sujeito e gargalhou — desculpe a frase de efeito, mas não se preocupe. Eu não sou o diabo.
Floriano voltou até a cadeira, apoiou-se no braço do móvel e escorregou até o assento.
— Não fique assim. Não quero que o senhor passe mal senhor Floriano — ele disse ele, e o nome soou “Flórriéno”.
— Não é possível. Tu tá morto desde 1977 — sussurrou Floriano.
— Se eu estou aqui, não é possível.
— Elvis!
— Muito prazer. Há muito que queria conhecê-lo. Acompanho suas apresentações pelo vídeos no You Tube. O senhor é o melhor Elvis de todos. Quase tão bom quanto eu.
— Puxa, obrigado, mas ninguém vai acreditar quando eu contar. Que…
— O senhor não vai contar para ninguém, não se preocupe. Esse é um segredo muito grande, não é mesmo?
— Mas o que aconteceu, por que tu desapareceu?
— A muito tempo eu não agüentava mais aquela vida. Mas o maldito coronel Parker não me deixaria largar tudo. Era uma verdadeira sanguessuga. Então comecei a planejar. Disse que estava cansado, que não conseguiria seguir em frente. Então contratamos um dublê. Não para os shows. Mas para algumas entrevistas e aparições. O sujeito bebia tanto quanto eu, e viciá-lo em comprimidos não foi difícil. Toda a minha vida eu roubei dinheiro. Exigia ter sempre dinheiro vivo em casa. Eu tinha um cofre segreto em Graceland. Ainda está lá. Ninnguém se preocupou em vasculhar a casa durante todos esses anos. Matei o dublê com uma overdose, peguei o dinheiro e sumi. Naquela época não existia DNA. Ninguém se preocupou em verificar o cadáver. A autópsia foi quase uma fraude. Quem se atreveria a dissecar o Rei do Rock?.
— E o que tu fez todos esses anos? — disse um Floriano perdido entre o medo e a fascinação.
— Primeiro, me instalei no Canadá. Uma pequena fazenda. Deixei que alguns anos passassem. Depois comecei os tratamentos. Uma clínica para me livrar da bebida e dos comprimidos. Depois, uma reeducação alimentar. Comecei a praticar natação. Na verdade fui bastante bom durante um tempo, apesar do início tardio. Nado até hoje. E claro, uma musculação leve. E nunca deixei de tocar ou cantar. Com o tempo, voltei para os Estados Unidos. Precisava fazer alguma coisa. Não que precisasse de dinheiro, mas eu sentia que minha vida recomeçava. Então resolvi fazer a única coisa que sabia. Montei um show de covers de Elvis Presley. Mas, por ironia, não tive sucesso. Participei de um concuros de imitações de Elvis e, acredite, fiquei em último lugar. Com os anos descobri que o único jeito de voltar a ser Elvis, mesmo que por algumas horas, eu deveria assumir o lugar de alguém, de algum cover. Do melhor de todos. Por isso estou aqui hoje.
— Como assim? Assumir o quê?
— Vou assumir o seu lugar, a sua vida, e assim poderei ser Elvis outra vez. O senhor é o melhor de todos. Aproveitarei a sua fama.
— Como assim, tu tá louco?
— Não. Nunca estive mais lúcido. Soube que o senhor tem uma lista grande de shows aqui e que o empresário quer que o senhor se estabeleça no país — disse Elvis — e pesquisei a sua vida. O senhor não tem família. Ninguém sentirá a sua falta.
— Tu tá louco. Tu nem parece mais contigo mesmo!
— Eu sei. No começo vou usar peruca e costeletas falsas. Já comprei tudo. São perfeitas, as melhores que existem.
— Mas eu não vou largar tudo essa é a minha vi….
Floriano não completou a frase. Elvis abriu o casaco e retirou a pistola com um longo silenciador na ponta do cano. Ele sempre andava armado. Mesmo no auge da fama.
— Foi um prazer conhecê-lo — disse Elvis e puxou o gatilho. A bala atingiu Floriano entre os olhos. O Rei do Rock apanhou uma toalha e colocou-a sobre o ferimento. Iria impedir o sangue de se espalhar. Já tinha um lugar para esconder o corpo e depois livrar-se dele. Sempre fora um bom planejador. Enquanto verificava seus novos pertences, cantarolou baixinho:
— …but I can’t help falling in love with you…

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1 comentário Adicione o seu

  1. Elis disse:

    wow…muito boa!

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