A Resistente.

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Cléber Mendonça Filho estreou na direção de longas-metragens com o elogiado”O Som ao Redor“. Utilizando elementos do filme de suspense, ele investigava as vidas dos moradores de um bairro de classe média alta em Recife, e suas relações com os diferentes níveis de prestadores de serviço que trabalham no lugar. Na verdade, narrava uma história de vingança,que revelava somente nos planos finais. Seu mote era o medo cotidiano, a insegurança e os desníveis sociais. Renomado crítico de cinema, o diretor exibia na prática seu conhecimento teórico.
Chega as telas seu segundo trabalho,”Aquarius“, precedido de polêmicas extra-cinema, que prejudicam a valorização dos méritos deste trabalho. O filme narra a resistência de uma jornalista especializada em música, agora aposentada, frente a demolição do prédio onde tem um apartamento, o último que a construtora, que planeja construir um espigão de luxo, ainda não conseguiu comprar. Como em seu trabalho anterior, Mendonça Filho utiliza a situação para falar de valores perdidos, da violência institucionalizada, e da resistência frente aos desafios da vida.
A narrativa se inicia nos anos de 1980, durante a comemoração do aniversário de uma tia que completa setenta anos. É uma seqüência belíssima, principalemente nos momentos em que a homenageada relembra dos momentos de amor com o companheiro já falecido. E aqui que nos é apresentado o apartamento que será o foco dos acontecimentos narrados.
A segunda parte se passa nos dias de hoje, quando Clara, personagem vivida com brilho por Sonia Braga, agora viúva, mora no apartamento que um dia pertencera a tia, e vive cercada de discos, livros e lembranças. Neste trecho a outra seqüência maior, quando ela explica, as jovens que a entrevistam, a diferença entre a música que tem suporte físico e a música virtual. A história do disco que escolhe como exemplo sintetiza com perfeição o amor por estes objetos. Livros e discos preservam momentos. Contam nossas histórias com eles, e as das épocas em que os adquirimos. Se incorporam as nossas vidas como criaturas reais, e sempre que os visitamos, é como visitar um velho amigo. É o ponto alto da narrativa.

O que virá a seguir exibe um certo maniqueísmo. O jovem e executivo, que estudou nos Estados Unidos, volta para o Brasil com, como ele mesmo declara,”sangue nos olhos”, querendo se provar digno de suas heranças, a explicação para um roubo praticado por uma antiga doméstica é a vingança contra a exploração patronal, e na discussão de Clara com o representante da construtora, o desgastado bordão “elite” é utilizado sem economia. A conversa da protagonista com o antigo colega de jornal, enquanto denuncia os laços sociais e familiares entre os poderosos, as igrejas envolvidas com eles, e critica a imprença que também se loclupeta desta situação, soa como um discurso repleto de palavras de ordem. A própria Clara, exibe certezas inabaláveis, é quase cultuada pelo bombeiro salva-vidas e nas discussões familiares, acaba sempre se impondo. E há ainda a informação sobre o procedimento criminoso da empresa, na tentativa de forçar a saída de Clara do prédio que é fornecida por dois antigos funcionários que “a admiram”.
O desenlace do conflito, mesmo permanecendo em aberto, reforça a fibra da personagem, que venceu um cancer, que lida com sua solidão e vive de acordo com suas crenças. Os predadores que rastejam pela mesa lembram Sam Peckimpah em “Meu Ódio será a tua Herança” e revelam a visão do relizador sobre o momento do país.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Elis disse:

    Bestimmt ein sehr guter Film.

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