Prisoneiros do Dogma.

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Foi tamanha a barbárie produzida pela Segunda Guerra Mundial, que seus efeitos ainda hoje influenciam nosso cotidiano, e seu material para reflexão se mostra inesgotável, passados setenta e um anos de seu final. E este excelente “Agnus Dei” confirma estes argumentos, narrando um fato não muito comentado,- a violência e brutalidade do avanço russo, que não apenas combateu o invasor nazista, mas vandalizou territórios e brutalizou populações inteiras. Incentivados por Stálin, os exércitos soviéticos cometeram atrocidades que rivalizam com o terror hitlerista. É sobre um destes atos que se desenvolve o tema de “Agnus Dei“.
Em 1945, uma unidade médica francesa, estacionada na Polônia, se ocupa de feridos e convalescentes de suas tropas. São os extertores do conflito, com os alemães derrotados e seus crimes revelados. É um trabalho quase rotineiro, até uma freira surgir em busca de ajuda. O convento onde ela vive foi invadido por combatentes russos, as religiosas violentadas, e muitas delas resultaram grávidas. Agora, vivem entre o medo e a vergonha, sem saber o que fazer ou a quem recorrer.
A diretora Anne Fontaine que já mostrara vigor em filmes como “Gemma Bovary” e “Coco antes de Chanel” realiza um filme vigoroso, um verdadeiro libelo contra os dogmas,independente de onde venham. O informtúnio dessas criaturas solitárias não é comprendido por um mundo destroçado e prestes a passar por cinquenta anos de opressão comunista. Comprometidas com a castidade, a gravidez indesejada, vítima de violência, encontra apoio na figura da enfermeira, desprovida de fé, mas repleta de respeito pelo próximo. Além dela, apenas o médico judeu, sobrevivente do Holocausto graças a um acaso, e que se abriga no cinismo para esconder a culpa por não ter perecido como os pais, se importará com aquelas criaturas.
O filme é uma ode a tolerância e um ataque as crenças dogmáticas. A bestialidade soviética, que quase atinge a enfermeira, é comparável ao crime que a madre superiora comete em nome da fé. A crença na pureza do proletariado é tão cega quanto o fervor pela misericórdia divina. São as ações humanas que salvam mães e filhos, que ajudam a acolher as crianças sem teto e criam um mundo mais harmonioso.

Longe de palavras de ordem de qualquer matiz, “Agnus Dei“é um exemplo de cinema humanista, um fato raro nos dias de hoje, em que as telas são dominadas por enxurradas de efeitos especiais e nenhuma idéia. Dotado de um realismo que não recua nem mesmo ante a crueldade de alguns momentos, o trabalho é narrado com fluidez, tornando o espector participante daquele drama. O final em nada compromete as contradições daquele mundo que cultiva o amor e o precoceito ao mesmo tempo, como fica demonstrado na personagem que sai em busca de um novo mundo e é acolhida na estrada pela enfermeira. O cinema françês continua mostrando vitalidade e resistência frente a vulgaridade.

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