O Sacrifício do Peão.

A Guerra Fria, termo criado pelo escritor inglês George Orwell em seu livro “A Revolução dos Bichos“, assombrou a tranquilidade do mundo desde o fim da Segunda Guerra Mundial, até a queda do muro de Berlim em 1989. A disputa entre os blocos capitalista, comandado pelos Estados Unidos e comunista, liderado pela então URSS, se estendeu em todos os campos de atividade. O esporte foi um dos mais utilizados. Os jogos olímpicos destinavam-se a demonstrar a superioridade de um ou de outro sistema. Porém o mais emblemático destas disputas simbólicas foi o embate, de 1972, realizado em Reykjavik, na Islândia entre o campeão mundial de xadrez, o russo Boris Spassky, contra o jovem mestre americano Bobby Fischer. É este o tema do ótimo filme, “O Dono do Jogo“, dirigido por Edward Zwick e atualmente em cartaz.
Zwick não pertence ao primeiro time de criados do cinema atual, mas sem dúvida é um artista com pretenções autorais. Seu nome começou a chamar a atenção em 1989, ao dirigir “Tempo de Glória“, um drama sobre um batalhão de soldados negros durante a Guerra de Secessão americana. Desde esse trabalho, Zwick deixava claro sua temática: a opção por tipos desajustados ou não inseridos no contexto diante de um desafio. É é este o tema que ele mais uma vez desenvolve neste seu mais recente trabalho.
Fischer é o solitário sem origem nem condições que faz seu caminho na vida graças ao seu talento como enxadrista. Filho de uma família marginalizada, a mãe imigrante russa e de tendências esquerdistas, ele não conhece o pai, e vê no jogo uma forma de vencer a circunstância na qual nasceu. Não é sem razão que ele se revolta contra a mãe e o amante dela e praticamente os expulsa de casa. Esta figura proscrita o perseguirá durante muito tempo, tanto que, quando em um campeonato de Los Angeles, cidade para a qual a mãe se mudara, ele dá claras instruções de como a segurança deve se portar quando ela aparecer. Também não é sem razão que, na noite em que Fischer perde sua virgindade, a jovem que o aborda, o faz no momento em que ele buscava o telefone da mãe junto a um serviço de informações telefônicas. Spassky representa a origem que lhe foi negada. Os delírios aos quais se entrega são projeções de seu abandono, tanto que a única figura que consegue se aproximar dele é um padre enxadrista.

As sequências da disputa são filmadas com precisão, transformando os movimentos no tabuleiro em instantes de enorme tensão. Zwick, que tem experiência no cinema de ação, imprega todo o seu conhecimento para fazer do jogo, que depende de elaborados movimentos, a disputa de uma vida, do defintivo lugar ao sol para o jovem sem família e aparentemente disprovido de sentimentos, mas que jamais se deixa manipular e que impõe condições e níveis de ganho aos aparentes “donos de jogo”.
O final nos remete a Anonioni e seu sempre presente “Blow Up“. Como o fotográfo daquela obra-prima inesquecível, após o prêmio conquistado, resta apenas o desprezo. No filme do diretor italiano, a guitarra é jogada no lixo, aqui, os patrocínios e a glória são recusados. Resta apenas o vazio, e talvez o esquecimento, como aconteceu com os soldados negros do batalhão sacrificado.

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