O Cangaceiro Passarinho.

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As festas eram raras na casa de repouso. Fora a Páscoa e o Natal, quase nenhuma. O ano novo se restringia a um almoço um pouco melhor no primeiro dia do calendário. Os aniversários eram lembrados mas jamais comemorados. Nenhum dos moradores tinha dinheiro para tanto. Na maioria eram abrigados de graça. A casa era financiada por doações. E por isso o dia de hoje era especial. O doutor Charrão, principal benemérito do lugar, vinha visitá-los hoje, e além disso, pagava uma festa com doces e refrigerantes para todos. Havia música no aparelho de som do refeitório, outra raridade. O lugar era limpo e ordeiro. Duas freiras dirigiam os trabalhos e serviam de enfermeiras. Os serventes e faxineiros eram contratados por conta do médico. Seu filho mais novo, o doutor Rodrigo Juvenal, duas vezes por semana, dava consultas no ambulatório. Foi ele quem se interessou por seu Passarinho, o mais velho morador do lugar. Ele chegara ali a pouco mais de um ano. Contou que morava sozinho até aquela data, mas que seu desejo era passar seus últimos dias em companhia de outras pessoas. A muito vivia só. Tinha economias e se propôs a fazer uma doação ao abrigo para financiar sua estada. Não contava viver muito mais. Declarou ter 98 anos. O doutor Rodrigo o examinou na sua primeira semana no lugar e impressionou-se. Passarinho, como ele dizia se chamar, não possuía documentos, o que não era incomum no lugar, era um cabloco forte para a idade que dizia possuir, magro, o rosto pardo mapeado por rugas, o que restara do cabelo embranquecera e era cortado rente ao crânio. Era baixo e caminhava apoiado em uma bengala. Meses depois iniciaram-se os boatos de que ele fora cangaceiro na juventude. O médico não resistiu e, em uma consulta, insinuou:
— Como um bom cangaceiro, o senhor segue forte.
Passarinho não respondeu. Olhou para jovem e sorriu exibindo os poucos e enegrecidos dentes que lhe restavam.
Semanas depois encontraram-se no pátio, ao entardecer, Passarinho sentado num banco a sombra de uma das árvores.
— Vai perder a janta seu Passarinho.
— Num tô cum fomi.
— Na sua idade é ainda mais importante se alimentar.
— Ninguém vai antis da hora. Sabi dotô, eu achu qui a genti só vai quanu num não tem mais nada pra fazê aqui.
— E o senhor ainda tem algum dever por cumprir?
— Tenhu sim. Uma última obrigação. Dispois possu i.
— Então não a cumpra. Assim fica mais tempo com a gente — disse o médico sorrindo.
— Já é tempo deu cumpri cum ela. Já isperei dimais.
— Coisa antiga?
— Coisa di antis dus meus tempu di cangaçu.
— Me conte então.
— Um dia, quem sabe, conto. Mais tem que sê um dia ispeciá. Aí falo pro sinhô.
Quando o doutor Rodrigo chegou acompanhado do pai, para a festa, vislumbrou Passarinho e ecaminharam-se na direção dele. Notou que o velho morador devia estar mesmo lisonjeado, pois apesar do calor, vestia um antigo paletó branco sobre a camisa da mesma cor. Como sempre, estava apartado dos demais. Sentiu o cheiro de tabaco que o velho exalava e sorriu. O sujeito era mesmo engenhoso. Como conseguia cigarros, e onde fumava?
— Boa tarde seu Passarinho. Queria lhe aparesentar o meu pai, o doutor Charrão.
Passarinho ergueu-se e tocou o a aba do velho chapéu de palha.
— Meu filho fala muito no senhor. Está fascinado com a possibilidade do senhor ter sido cangaceiro, apesar de eu ter dito a ele que todos os antigos cangaceiros já morreram.
Charrão era um homem bem cuidado, vestido com elegância e fazendo todo o possível para disfarçar seus mais de oitenta anos.
— A num sê qui alguém tivesse começadu muitu novu i fosse muitu véio — respondeu Passarinho.
Trocaram um olhar quase desafiador, mas Charrão sorriu e olhou para o filho.
— E então seu Passarinho, a ocasião é especial o suficiente para que o senhor nos conte qual a sua última obrigação, aquela que ainda o prende ao mundo? — perguntou o médico mais jovem.
O velho coçou o bigode fino e grisalho antes de responder.
— U sinhô tá tão curioso assim que gastô dinheru cum uma festa só pra sabê qual é a minha última ubrigação?
Não houve resposta. Passarinho sentou-se e, mirando um ponto indefinido do pátio, falou.
— Fui cangacero dus 18 inté us 30 anu. Robei dinheru dus companhero de bando, matei dois i sumi. Vim primero pra Minas. caminhanu. Dispois pra cá. I sabi nu que eu meti u dinhero que robei? Num putero. E foi um bom negóciu. Ganhei dinhero i tinha sempri uma mulhé diferenti. I sabi porque fiz issu? Pur vingança. Uma vingança qui nunca consigui cumpri. Vi meu pai morrê na minha frente a mandu dum coroné. O jagunço mi feiz oiá tudu. I u coroné tava lá também. I além deli u filhu. Um muleque duns cinco o seis anu. I sabe duma coisa. Eu jurei matá o coroné, u filhu i u jagunço. Essi matei logu. Mais u coroné morreu antis deu consigui. Mais u filhu tá vivu. I u filhu deli também.
Os dois médicos se olharam e Charrão disse para o filho:
— Ele está senil. Acho que você deve interná-lo.
Rodrigo não respondeu. Olhou para Passarinho e não quis acreditar no que via. O velho abriu o casaco e puxou da cintura um revólver de modelo antigo mas conservado.
— Guardei dus tempu di cangaçu. Isperandu essa hora. U nomi du meu pai era Jusé Dornelles. Seu pai dotô Charrão, mandô mata eli i u sinhô era u muleque qui riu. Agora vô lhi mostrá uma coisa.
Passarinho ergueu o braço, fez mira e disparou. A bala atingiu Rodrigo entre os olhos e ele caiu morto. Charrão cambaleou, e foi na direção do filho. Passarinho mirou novamente e acertou-o na perna.
As pessoas ao redor se dispersaram, havia gritos e as freiras tentavam afastar os residentes ainda próximos.
— Eu lhi persigui todu essi tempu. Mais nunca consegui um jeitu. Até qui li sobre u seu asilu. Ai vim pra cá na isperança di lhimcontrá. Aí apariceu seu filhu curiosu i tudo ficô mais fácir. Intão, cumu é vê a pessoa qui mais si gosta morta sem a genti pudê fazê nada?
Charrão arrastou-se para junto do filho, mas Passarinho colocou o pé em seu pescoço e o imobilizou.
— Agora cê vai morrê. Eu Robério Dorneles, vulgo cangacero Passarinho, filho de José Dorneles, quero vê si cê vai ri agora.
Apontou para o pescoço de Charrão e disparou. A bala cravou-se atrás da orelha do médico e ele tremeu num último espasmo. Passarinho olhou para os corpos ensangüentados e sentou-se. Colocou o revólver ao seu lado sobre o banco e fixou, sem enxergar, as pessoas que se amontoavam no canto oposto do terreno. Tinha cumprido sua missão. Quando sua hora chegasse, iria em paz.

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