A Morte não necessita Convite.

Eu desenvolvera um método eficaz para me livrar dos vendedores, divulgadores ou pedintes que espreitam nas sinaleiras. Ao perceber que se aproximavam, pegava o celular e fingia que falava irado. Era infalível. E naquela manhã calorenta eu não agia diferente. A fauna estava toda lá. Jovens, velhos, alguns fingindo uma incapacidade física, todos querendo dinheiro. Por um trabalho, uma mercadoria ou pela atuação como deficientes. Mas havia algo diferente na moça que se aproximou do vidro do meu carro. Era baixa, um pouco gorda, o cabelo encarapinhado escapando do boné esverdeado, blusa de alças deixando os ombros nús, shorts e tênis desgastados. Ela sorriu e ofereceu uma das canetas do molho que trazia nas mãos. Trocamos um olhar e, sem me dar conta, baixei o vidro. O bafo quente invadiu o ar condicionado do carro.
— Não quer comprar uma caneta?
Olhei para ela com vontade de dizer que canetas eram instumentos do passado, que perderiam sua utilidade com o avanço da tecnologia do mesmo jeito que aconteceu com as galochas. Mas permaneci calado, olhando o rosto vulgar que, sem que eu conseguisse explicar porque, me fascinava.
— Compre, não é caro, e pode ser a última caneta que tu vai comprar na vida — ela disse sorrindo.
Automaticamente tirei a carteira da pasta que trazia no banco do caroeneiro e estendi uma nota.
— É muito — ela disse ainda sorrindo, os olhos brilhando ao ver o dinheiro.
— Não tenho menos — respondi.
— Então leve duas — ela retrucou e, quando me estendeu as cantetas, meus dedos roçaram os dela. Sua pele era gelada. Como a dos mortos. Eu lembrava de haver tocado minha avó no caixão antes do enterro. Mas era impossível. Ela suava. Via as gotas descerem pelo seu rosto. Ela pegou o dinheiro e afastou-se, o braço erguuido mostrando a caneta, o grito desafinado:
— Olha a caneta!
O verde apareceu na sinaleira e arranquei o carro. O trânsito começara a fluir sem razão aparente, da mesma forma que o engarrafamento se formara. Meu destino estava próximo e procurei um lugar para estacionar. Encontrei uma vaga sob a sombra de uma árvore e disse para mim mesmo que tudo corria bem. Seria um dia vitorioso. Desci e caminhei na direção do prédio onde meu cliente me aguardava. Entregaria os documentos originais que comprovavam a fraude que seu sócio praticava e receberia meu cheque. Um trabalho minucioso e rápido, como sempre. Então os homens surgiram da sombra de uma marquise. Eram três. Dois brancos e um negro. Ele se adiantou e disse:
— A pasta. Sem conversa.
Recuei alguns passos e ele completou.
— Não corra nem resista. Não tenho tempo para perder e tu sabe que não vai adiantar nada.
Os dois homens se adiantaram e mostraram as armas na cintura levantando as camisetas de times de futebol que usavam. Eram novas e oficiais, notei. Profissionais, gente bem situada no seu ramo de atividade.
— E então, como vai ser? — disse aquele que parecia ser o chefe. Ele vestia roupa casual, camisa pólo branca e jeans. Também artigos de qualidade. Não exibiu arma. O serviço sujo ficava por conta dos companheiros.
Ergui a pasta até a altura do peito e comecei a puxar o fecho. Coloquei a mão para dentro dela e senti uma das canetas. A tampa havia caído. Retirei-a lentamente e o homem se aproximou.
— Os documentos, ligeiro, não quero droga de caneta enhuma.
Ele estendeu a mão e eu, sem pe dar conta, deixei a pasta cair, peguei a mão do homem, puxei-o na minha direção e cravei a caneta em seu olho direito. Ele gritou, cambaleou na direção dos companheiros que se adiantaram. Um deles sacou a arma mas, no momento dm que a tirava da cintura, o ferido tombou sobre ele, prendendo o braço armado. Dois tiros soaram e os homens cairam. A arma dispara. Os dois corpos ensangüentados rolaram no chão. Então o outro sacou a pistola e fez mira. Me abaixei para levantar a pasta e, sem me dar conta, procurei a outra caneta. Enquanto me abaixava ouvi o rugido do tiro que passou sobre a minha cabeça. Ergui-me e, de caneta em punho, me atirei sobre o homem. Agia sem pensar, o medo comandando as ações. O homem segurou meu golpe e, com o outro braço, colocou a pistola em meu rosto. Vi quando ele puxou o gatilho que permaneceu imóvel. A arma travara. Nenhum de nós se moveu, surpresos com o que acontecia. Então dobrei sua mão apontando o cano em direção a ele. Apertei o gatilho que desta vez cedeu. O sangue espirrou quente no meu rosto. O homem contourceu-se num espaço antes de se imobilizar para sempre. Rolei de lado, apanhei a pasta e saí titubeante, as roupas ensangüentadas, sem saber o que fazia. Não enxergava com clareza, a respiração dolorida revelando o pavor que me dominava. Matara três homens sem saber como. Cheguei a esquina e, do outro lado da rua a identifiquei. A vendedora de canetas. Ela me salvara a vida. Sem as canetas eu não teria como me defender. Atravessei a rua e senti o impacto sem identificar de onde ele vinha. Rolei sobre o asfalto, as dores torturando todo o meu corpo, o gosto do sangue invadindo minha boca.
Escutava vozes, rostos desconhecidos ao meu redor. Alguém gritou:
— Uma ambulância! Chamem uma ambulância!
Eu não disntiguia os movimentos, a visão obliterada pelo sofrimento. Então ela surgiu.
A vendedora de canetas sorria, indiferente ao pavor dos outros ao meu redor. Ela abaxiou-se e pude ver sua expressão feliz.
— As can-ne-taaasss…. — tentei balbuciar.
Ele me olhou por mais um momento antes defalar:
— A morte não precisa de convite para chegar, e ninguém escapa dela.
Foram as últimas palavras que escutei na vida.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Elis disse:

    Muito bom!!! Adorei!

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