Tchê Metal.

O auditório estava lotado, as arquibancadas de cimento ocultas pelo grupo mais assustador que ele jamais vira. A maioria tinha os cabelos passando dos ombros, barbas hirsutas, os braços cobertos por tatuagens, muitos ostentavam pulseiras de couro preto que subiam quase até o ombro. As roupas eram todas escuras, e algumas camisetas tinham caveiras decalcadas do peito.  As mulheres usavam idumentárias semelhantes e algumas tinham bandanas coloridas prendendo os cabelos.
— Vamos faturar como nunca! — disse Clóvis — e com todos os patrocínios que tivemos, o lucro vai estourar Zé!
Ele não respondeu. O chefe era assim. Dinheiro antes de tudo. Por isso era rico. Promovia qualquer espetáculo, se envolvia em vários eventos, desde que tivessem lucro assegurado. Dizia que não gostava de música e jamais perdia tempo com cinema, leituras ou teatro. A matemática era suficiente.
— Sepultura! Sepultura! — urrava a platéia.
Estavam na coxia do teatro, espiando por um vão da cortina. Os gritos eram cada vez mais altos e as botas que socavam as arquibancadas tremiam a estrutura.
— Fudeu chefe! Fudeu tudo — gritou Roberto, o auxiliar mais direto do produtor, subindo a escada.
— Que loucura é essa Roberto?
— O sepultura! O Sepultura!
— Lugar de gritar pelo Sepultura é lá embaixo, não aqui — ironizou o produtor.
— Eles tão presos no avião em Florianópolis!
— Como presos? Arruaça? — sempre desconfiara daqueles tipos, disse para si mesmo, uns loucos cabeludos, no mínimo tinham se drogado e demolido algum lugar.
— Não — disse Roberto quase chorando — uma chuvarada. Não sabem quando vão decolar. A meteorologia disse que é passageira, mas esses caras não sabem nada.
— Quanto tempo pode demorar até eles chegarem, se a chuva passar?
— Uma, talvez duas horas — choramingou Roberto.
— Sem problema. Aumentamos o show da banda de abertura.
Ninguém falou. Zé e Roberto trocaram um olhar rápido depois focaram o chão.
— Ficaram mudos? O que foi? Chamem os caras da banda de abertura agora!
Novo silêncio, até Roberto balbuciar com os olhos ainda colados no piso:
— Não tem banda de abertura…
— Como? Sempre tem isso! Quem foi o idiota que tomou essa decisão!
— O senhor mandou economizar onde desse. O show do Sepultura tá contratado para durar duas horas. O senhor disse que era o que o caras iam querem ouvir. Então…
O produtor não respondeu. Acendeu um cigarro e também focou o piso.
— Zé, dá um jeito. Arranja alguém pra tocar e acalmar esses bichos.
— Mas onde vou arrumar uma banda assim do nada? E além do mais os instrumentos e…
— Te vira. Se esses malucos se enfurecerem e quebrarem tudo aqui eu fico sem firma por causa do prejuízo e vocês sem emprego.
Roberto olhou para o colega exprimindo um misto de solidariedade e cobrança, esperando o que ele diria.
Zé lembrou-se do que vira no caminho para o teatro. Não acreditava que funcionasse, mas no desespero tudo é válido, pensou.
— Eu já volto.
Desceu correndo a escadaria e saiu pela parte traseira do ginásio. Atavessou o parque que rodeava o local, esqueirou-se entre os carros e ônibus nas duas faixas da avenida e, ao atingir a calçada oposta, procurou o bar onde vira o sujeito. Caminhou o mais rápido que podia sem correr e enxergou o boteco. Diminui o passo para recuperar o fôlego, passou a mão pelo rosto e cabelos para amenizar o suor e entrou.
Ele estava na mesma posição. Pernas cruzadas, olhar perdido, a garrafa de cerveja pela metade sobre a mesa, o chapéu preso a cadeira vazia ao seu lado. Zé caminhou lentamente, aproximou-se, e falou:
— Boa noite amigo, posso sentar?
O homem o encarou sem responder.
— Não me leve a mal, mas notei que o amigo é músico — disse Zé apontando para o saco acomodado na mesma cadeira onde o chapéu descansava.
— Pois, sô mesmo. Gaitero, e dos bons.
— O senhor caiu do céu, pois eu preciso de um gaiteiro agora, prá tocar umas duas horas no máximo — falou Zé espremendo-se no espaço deixado pela gaita na cadeira.
— Gostaria muito de poder lhe servir, mas tô voltando agora pra casa. Tinha apalavrado pra tocar em seis baile, mas só marcaram quatro, assim, volto hoje. Tenho compromisso daqui dois dias nuns fandango das colônia perto de donde moro.
— Não se preocupe. Pago o hotel, e dos bons, para o amigo pernoitar, mais um bom cachê.
— Quanto o amigo paga? — perguntou o gaiteiro.
— Quanto o senhor cobra por baile?
Não houve resposta.
— Pago dez vezes mais — desafiou Zè.
— Olha que pode le saí caro este baile.
— Tô precisando e o senhor tem jeito de ser um gaiteiro muito bom.
— Ah! Isso sô mesmo.
— Então, estamos acertados — inquiriu Zé estendendo a mão.
— E onde é que eu tenho que tocar?
— É aqui perto, no ginásio no meio do parque.
— Nunca toquei num lugar grande assim.
— Lugar é tudo igual. Músico bom não se assusta — desafiou Zé.
— Pois estamos acertados então — disse o gaiteiro, apertando a mão que Zé estendera.
— Então vamos indo que não dá prá atrasar mais — respondeu Zé e atirou sobre a mesa uma nota que pagaria uma dúzia de cervejas. O gaiteiro olhou e Zé o puxou pela manga do palitó listrado. Ele vestiu o chapéu, ajeitou o barbicacho no queixo, e seguiu o desconhecido, as esporas tilintando ao ritmo do caminhar apressado. Cruzaram a avenida e entraram pela parte traseira do ginásio. Antes de entrarem, o gaiteiro tocou o ombro do homem que o contrara e falou:
— Não sei nem o seu nome.
— José Flores.
— Pois somos tocaios. Sou José Manoel Souza.
Ao fundo os gritos soavam mais e mais altos:
— Sepultura! Sepultura!
— Morreu alguém? — perguntou o gaiteiro.
— Não. É só o jeito da platéia, um pessoal meio estranho. Vamos indo. Logo que começar a música eles se acalmam.
Trocaram um aperto de mão e entraram pelo corredor escurecido. O empresário ficou estático ao enxergar Zé e o gaiteiro.
— O que é isso? Tá maluco Zé?
— Esse é o senhor José Manoel Souza. Vai abrir o show para nós.
— Um gaiteiro? Ficou louco Zé?
– Não tô aqui de oferecido. Se não me querem vou prá rodoviária pegar meu ônibus prá casa.
— Que nada! O senhor vai tocar! Tem a minha palavra — disse Zé e, virando-se para o pessoal da iluminação, gritou — apaguem as luzes e coloquem a música de chamada.
A ordem foi obedecida de imediato e platéia e palco ficaram as escuras. Ao fundo o trash metal do Sepultura invadiu o ambiente. A platéia urrou,as batidas de pé ficaram ainda mais fortes e o grito foi uníssono.
— SEPULTURA! SEPULTURA!

— Vem comigo,anda — disse Zé pegando o gaiteiro pelo braço. Ele tirou a gaita do saco, ageitou as correias nos ombros e entraram no palco.
Zé o conduziu até o microfone e sussurrou ao ouvido dele.
— Quando a luz acender fecha os olhos e toca. Não importa o que tu ouvir. Lembra do pagamento — e saiu correndo.
De volta a coxia, ordenou ao operador de luzes.
— Ilumina!
O empresário, Roberto e ele olharam através da fresta da cortina.
Por um momento, o ginásio submergiu ao silêncio. O gaiteiro olhou a platéia barbuda, tatuada, vestida de couro negro e camisetas ostentando decalcos de caveiras. Ela olhou para o músico solitário, de bombachas claras, botas marrom subindo até o joelho, camisa branca,palitó listrado, o chapéu preso ao queixo pelo barbicacho e ninguém soube o que fazer. Até um grito quebrar a inércia.
— Que merda é essa!
Outros brados se ouviram até que uma garrafa espatifou-se próxima as botas do músico. Outros objetos foram jogados e atingiram alvos distantes. O gaiteiro estava lívido, os dedos presos aos botões da gaita de oito baixos tremiam, as mãos estavam rígidas. Os lábios apertados, submergiam no bigodão que lhe cobria a boca.
— Toca! Toca de uma vez — gritou Zé por trás da cortina.
O gaiteiro ensaiou uma nota, os uivos se sucederam e ele permaneceu imóvel.
— Toca de uma vez se não esses caras vão nos matar! — berrou Zé desesperado.
O gaiteiro fechou os olhos, e reiniciou a música,os uivos e xingamentos crescendo a cada acorde. Ele então começou a cantar.
— Ai bota aqui, ai bota ali o seu pezinho, o seu pezinho bem juntinho com o meu. E depois…
E, esquecido dos apupos, começou a bater a bater o pé ao ritmo da música, o tinido das esporas mesclando-se ao lamento da gaita e, pouco a pouco, os uivos diminuiram. Até que somente a voz do músico, o lamento da gaita e o rebimbar das esporas circulou no ambiente. Pouco a pouco a platéia voltou a bater os pés, primeiro ao ritmo da música, depois alterando os compassos que o gaiteiro seguiu instintivamente, e por fim, a letra da canção soou gritada, primeiro nas fileiras junto ao palco, depois por todo o ginásio. E naquela noite, nasceu o Thê Metal.

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