Por Amor.

Qual a maior demonstração de amor que existe? Como revelar a intensidade de um sentimento? Palavras? Impossível. Por mais eloqüentes que sejam, são passageiras. Gestos? As vezes são imperceptíveis. A única forma são ações concretas. Era o que eu decidira fazer. Hoje, quando Célia chegasse, eu revelaria meu sentimento de forma definitiva. Desta vez ela não teria como me ignorar. Seu sorriso envolvente e sua simpatia de todos os momentos não a protegeria da revelação que ela procurava evitar desde os primeiros momentos. Porque foi paixão a primeira vista, mesmo eu sabendo os motivos que levaram ao nosso encontro. Estávamos ligados por uma razão de vida e morte. A vida dela, jovem, bonita, e a minha morte, costurada a cada dia pela doença terminal.
Quando o médico diagnosticou o problema resolvi não prosseguir o tratamento. Era apenas prolongar a decadência, acentuá-la com medicação com a qual eu” ganharia uma sobrevida” nas palavras do especialista. Revi meu testamento, afastei-me no trabalho e o médico me indicou uma agência que dispunha enfermeiras a domicílio. Eles enviaram três currículos. Escolhi Célia pela foto. Ela apareceu na manhã seguinte e eu expliquei o caso. Eu ainda mantinha minha aparência normal, mas o tempo escoaria rápido para mim. Primeiro a fraqueza, depois as dores, até o torpor quando as doses de medicamentos se tornasseem maciças. Ela sorriu e disse que se encarregaria de tudo. Eu não sorri. Alguém no meu estado dificilmente acha graça de alguma coisa. Ao menos era o que eu pensava naquele momento.
Nos primeiros dias eu não sabia o que fazer do tempo que me restava. Procurar os amigos, contar sobre a doença, sobre o pouco tempo que me restava e a miséria que seria o meu fim? Não valia a pena. Beber na tentativa de esquecer? Eu nunca fora um grande bebedor. Era tarde para começar. Procurar prostitutas e passar meus últimos dias em busca do prazer total? Era uma alternativa. Comecei a procurar sites de prostituição na internet, mas naquela tarde, Célia, quando trouxe a medicação, perguntou:
— O senhor joga xadrez?
Fazia muito que não jogava. Ela ganhou as duas primeiras partidas. Resolvi procurar intruções de jogo on-line. Três semanas depois comecei a vencê-la. Ela sorria ao ver meu progresso. O clima começava a mudar e ela passou a usar um vestido ao invés da calça e colete que trajava no inverno e ocultava suas formas. Comecei a espiar seus seios, tentando ver além do recôncavo que surgia quando ela se abaixava. Naquela época, as primeiras dores mais fortes apareceram.
— O senhor vai ficar bem a noite? Pode me ligar se necessitar de qualquer coisa. O senhor tem meu telefone.
As necessidades as quais ela se referia eu podia reprimir. As dores eram suportáveis com a medicação e eu aprendia a lidar com as limitações. Minha preocupação era Célia. Logo ela cuidaria de outro doente. Entregaria a ele as mesmas atenções que me emprestava, tocaria seu corpo como tocava o meu, o confortaria falando do dia a dia, dos assuntos que o interessavam para distraí-lo do fim eminente. Com a decadência e a morte eu estava acostumado, mas perdê-la para outro era insuportável. Só havia uma solução.
Ela foi pontual como sempre. Portava um vestido estampado, os ombros desnudos, as costas á mostra para fugir do calor da rua. Vestiu sua roupa de trabalho, trouxe a minha medicação e perguntou se havia novidades no jornal. Eu repondi que era o de sempre. Até a violência se tornara banal. Ela balançou a cabeça e sorriu o mais lindo sorriso que eu já vira e disse.
— A violência nuca é banal.
Neste momento eu me levantei empunhando a faca que escondera entre o jornal. Um golpe único, no pescoço. Enterrei a lâmina até o cabo. Ela caiu, o sangue jorrando farto. Puxei a faca, e cortei meus pulsos horizontalmente, na maneira fatal, como dizia na internet. Deitei-me ao lado dela, senti nossos sangues se misturarem. Antes de perder a conciência escrevi no chão.
Por amor.
Despois escureceu.

Anúncios

1 comentário Adicione o seu

  1. Elis disse:

    wow….belo conto!!! Sabia que não haveria um final feliz, mas foi impactante. Que declaração!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s