Tempos de Pensadores.

Nestes tempos tão consumidos pelas certezas da informática e as novidades dos meios eletrônicos, quem ainda lembra de Jean Paul Sartre? O que ele representa para a nossa realidade globalizada, sem face, sem fronteiras e, para muitos, sem esperança? Seu legado tem força para apontar caminhos nesta era sem convicções que não o consumo e a exposição pública?
Sartre foi um dos intelectuais mais influentes do século XX. Mundialmente famoso, era conhecido até por quem nunca abriu um de seus livros. Filósofo, ensaísta, romancista, teatrólogo e ativista político, De Gaule o comparou a Voltaire para explicar porque ele permanecia livre apesar de suas pregrações quase belicosas, ao dizer que, “não se prende Voltaire.” Resistente na II Guerra, foi um militante em favor da indepelndência da Argélia, o que lhe trouxe desabores e inimigos.
Passados 35 anos da sua morte, pouco ficou de seu pensamento político. Seu arraigado Marxismo foi soterrado pelo tempo e suas posições radicais hoje se mostram equivocadas e muitas vezes dogmáticas. Concientemente ignorou os Gulags, as violências de Stalin e as ditaduras esqueristas. Este posicionamento lhe custou a amizade com Albert Camus, outro portento intelectual da época e, como Sartre, homem de múltiplos interesses e talentos que terminou rejeitando o marxismo por uma posição liberal.
O que Sartre nos lega é seu pensamento filosófico e seu trabalho como escritor. Livros como a trilogia dos, ” Caminhos da Liberdade“,” A Náusea“, os contos de “O Muro“, o explêndido romance quase memorialístico que é “As Palavras“, atestam seu talento e a intemporalidade de sua escrita. Suas peças como “Entre Quatro Paredes” “As Moscas” e “Os Seqüestrados de Altona” o colocam entre os grandes de todos os tempos.
Sua pregração existêncialista é válida até hoje. Para ele o homem está condenado a ser livre, pois está sempre escolhendo. É o preceito base de sua filosofia; ” a existência precede a essência“. Nascido sem qualidades ou defeitos esse ser se constroí ao longo da vida e é o artífice do próprio destino. Sartre declarou que o “homem é a Angústia” e é com estas situações que deve lidar. Seu ensaio ” O Existencialismo é um Humanismo” é brilhantemente didático sobre seu pensamento e abre um universo sem fim de indagações mesmo para aqueles pouco afeitos ao pensar filofófico.
Por isso é muito bem vindo o lançamento da Versátil Video, “Sarte no Cinema” Trata-se de uma caixa com dois DVD’s, o primeiro, uma minissérie em dois episódios, dirigida pelo veterano Claude Goretta, “Sarte, a Era das Paixões” e o segundo um documentário, “Sarte por Ele Mesmo” de Alexandre Astruck, realizado em 1976, que é na verdade uma entrevista com o intelectual e sua companheira Simone de Beauvoir na qual ele repassava seu pensamento e as situações vividas ao longo dos anos.

O filósofo e escritor Jean Paul sartre.
O filósofo e escritor Jean Paul sartre.

A Era das Paixões” recria o período em que Sartre se engajou na luta pela independência da Argélia e sua prepgação contra a política do então presidente da França General Charles De Gaule. O filme é um retrato,impiedoso de um intelectual vaidoso, entregue a uma voragem em que trabalho, idéias e doses maciças de bebida se misturam a radicalismos e contradições, enquanto acumula conquistas amorosas. O filme é também um retrato de seu peculiar relacionamento com a também escritora e ativista feminista Simone de Beauvoir.
Vemos um Sartre raivoso, que despreza e agride os que não dividem seu ideário e que muitas vezes relega o outro (ponto importante em sua filosofia) a um plano inferior para que suas idéias grandiosas se materializem. O filme se conclui quando Sartre renega o premio Nobel deixando no ar a dúvida de que o gesto foi um protesto ou uma demosnstração de vaidade de um homem que se sabia tão ou mais célebre que o prêmio que lhe atribuíam.
Sartre por Ele Mesmo” é um trabalho para os iniciados na filosofia sartreana e em seus motivos. São mais de três horas de explanação sobre pensamento e obra, cobrindo quarenta anos de um dos períodos mais conturbados da história mundial. Longe de entediar, o filme é uma corajosa relíquia, o depoimento de um intelectual que repensa sua trajetória a luz de seu ideário e de suas atitudes. Um documento precisoso sobre uma era já desparecida.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s