O Diabo Protege seus Iguais.

A Segunda Guerra Mundial é um inesgotável veio para a ficção. Novos filmes e livros aparecem a cada dia, tamanhas são as possibilidades que o mais terrível conflito bélico de todos os tempos apresenta. Um dos maiores filmes da história do cinema , “Hiroshima meu Amor“, de Alain Resnais, tem aquela guerra como origem. Por isso chama a atenção este excelente ” Corações de Ferro“, dirigido por David Hayer , um diretor que já havia deixado muito boa impressão em seu filme anterior,”Marcados para Morrer” e que confirma e amplia as qualidades de seu cinema com este filme.
A ação se passa nos extertores das batalhas, com os aliados a caminho de Berlim. Os protagonistas pertencem a uma divisão de tanques que vem combatendo deste a África. A ação se inicia quando um dos integrantes é morto, o que abala aquela estranha família nascida naquela casa sobre correias metálicas e cujo objetivo é exterminar seus inimigos. Quando um novo integrante a ela se incorpora para substituir o membro falecido, o tênue equilíbrio que estabelecera entre eles é abalado. A violência, que faz parte de seu cotidiano, precisa ser ensinada, e este aprendizado abalada tanto mestres quanto aluno.
David Hayer reflete sobre a brutalidade e ao mesmo tempo sobre necessidades fundamentais do ser humano. É significativa a seqüência passada no apartamento onde vivem as duas jovens alemãs. Naquele momento, há uma pausa na barbárie e, por alguns momentos, uma nova família se estabelece. Não é sem razão que o personagem vivido por Brad Pitt tem por apelido “Wardaddy”. Em certo momento ele declara que prometeu levar seus homens vivos até o fim da luta. Por isso a morte de um deles o abalada tanto. Ele é um pai zeloso, que carrega no corpo as marcas dos combates, que não hesita em ser violento com os seus quando entende que esta violência ajudará na suas preservações. Quando a harmonia da refeição é abalada, temos a antecipação do que virá. A realidade se impõe e a volta ao combate é eminente.
Realizado com segurança narrativa exemplar, “Corações de Ferro” comprova que Hayer é um cineasta com pretenções autorais. Em seu filme anterior, o já citado ” Marcados para Morrer,” os policiais vivenciavam a guerra do cotidiano violento das periferias. Ao invés do tanque de guerra, dirigiam um carro patrulha e terminavam compondo uma família toda particular. Até mesmo o epílogo era semelhante. Os laços formados, mesmo que pela violência, terminavam se impondo, não recusando os riscos de sacrifício que a fidelidade a eles obriga.

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Trabalho realista e em algum momentos chocante, o filme jamais é gratuito. A crueza e violência jamais são gráficas. Em combate, todos são feras. Quando um comandante encontra o “Wardaddy” depois de vários anos e brinca ao supreender-se que ele ainda esteja vivo, este reponde que, “o diabo protege os seus iaguais”. E é nisto que aqueles soldados de ambos os lados se transformaram. O final, quando o sobrevivente é chamado de herói é de triste irônia, quando sabemos em que circunstâncias o dito ato de heroísmo se deu. A certeza que fica é de que, em uma guerra, até os vencedores perdem”.
Outro filme em cartaz, que também tem a Segunda Guerra Mundial como cenário, é ” O Jogo da Imitação” primoroso trabalho de Morten Tyldum sobre a vida do matemático Alan Turig, que chefiou a equipe de criptógrafos ingleses que quebraram o código de comunicação nazista conhecido como “Enigma”.
Estamos frente a um personagem tão trágico quanto T.E. Lawrence, o Lawrence da Arábia, outro heroí inglês atormentado por seu gênio e seus conflitos interiores. Ambos vivem em mundos particulares, e quando são forçados a interagirem com o cotidiano, encontram problemas para se comunicarem e impor seu código particular de valores.
Turig, incapaz de se relacionar com os colegas, constrói um protótipo de computador, uma máquina capaz de raciocinar mais rápido que um ser humano, portando hábil o suficiente para interceptar as mensagens nazistas válidas por seis horas.
O filme é construído de maneira atemporal, mostrando vários momentos na vida de Turig, que vão se entrelaçando até o melancólico final. É significativa o interrogatório policial, quando Turig desafia o detetive a identificar se ele está falando com um ser humano ou uma máquina. Lembra o clássico “Blade Runner” de Ridley Scott, quando uma entrevista semelhante servia para identificar os Replicantes.
Vítima da intolerância, Turig é taxado em alguns momentos de monstro. Mas o diretor, com habilidade, nos revela que os verdadeiros monstros são os donos do poder, caracterizados na figura do agente secreto, este sim, uma criatura capaz de qualquer ato para atingir seus objetivos. A seqüência onde ele informa aos participantes da equipe de Turig e ao próprio que seu trabalho terminou é reveladora. Toda a frieza de um manipulador é explícita em poucas palavras. Já Turig é apto ao sacrifício por aqueles a quem ama, como demonstra ao romper com a noiva. Toda a carga trágica do personagem alcança seu momento de insuperável grandeza.
Como em ” Corações de Ferro” o mal protege o seus, e para as criaturas como Turig resta apenas a imitação, como fica claro no nome que ele dá a sua máquina. É o que lhe resta de vida, ainda que ela apenas imite a verdadeira.

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