O Silêncio Acusador.

A Literatura de língua alemã gerou dois livros clássicos sobre a guerra. ” Tempestade de Aço” de Ernst Jünger e “Nada de Novo no Front” de Erich Maria Remarque. Ambos se destacam por sua descrição realista dos horrores das batalhas. Enquanto o trabalho de Jünger é, em alguns momentos, quase documental, o de Remarque prima pelo intimismo, valorizando a amizade e os valores humanos que, mesmo em meio a barbárie, conseguem se manifestar. Ambos retratam os confrontos da chamada. I Guerra Mundial pois os autores combateram neste conflito. Mas sem dúvida é a II Guerra Mundial, com seus ódios racistas que ainda nos assombram, a lembrança que mais choca. Campos de extermínio e matança por meios até então inusitados, marcaram de tal forma o século XX que seus efeitos se estendem até hoje. É sobre estes fantasmas que o escritor alemão Uwe Timm baseia seu livro ” À Sombra do meu Irmão“.
O autor nasceu em 1940, e viu o irmão mais velho perecer na Frente Russa. E este fato lhe marcou a vida, tanto pela dor da perda como pelos efeitos que produziu em sua família. Ele era o filho preferido, aquele que atingiria os sonhos que o pai não pôde realizar, que atrairia para todos a prosperidade tão desejada. Sua perda transtorna e, junto a derrota na guerra e a revelação do horror dos campos de extermínio, abala certezas a muito cultivadas.
Tim inicia seu trabalho refletindo sobre a família, principalmente o pai, um homem de talento e beleza, com trato social e percepção para os negócios. Mesmo assim ele não hesita em alistar-se na Wermacht e partir para a luta. No futuro, vai alegar que lutou pela pátria, que desconhecia os horrores perpetrados pelas SS nos campos de concentração. Quanto a mãe, ele a vê como um exemplo de serenidade mas também de força e capacidade de reação. É exemplar o trecho que mostra sua reação quando uma senhora de posses lhe pede desconto no preço de um produto que vende. Há a irmã, a filha mais velha, que de certa forma representa a Alemanha destroçada, em busca de um caminho. Mas ao contrário do país, ela nunca retomará o seu trajeto. Essa crônica familiar se amplia na segunda parte do livro com Timm refletindo sobre a Alemanha.

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Sua investigação é impiedosa e suas conclusões desconhecem inocentes.
O ponto de partida são os apontamentos que o irmão fez durante seu período na frente russa. O primeiro choque é com a calma e quase satisfação que esse experimenta ao localizar um soldado russo que fuma despreocupadamente sem saber que está sob a mira alemã e prestes a morrer. Aquele ser afetuoso e protetor agora sentia prazer em matar. Também ele desconhecia o que se passava nos campos? Ou o prazer em tirar a vida de outro ser humano não possuía limites? É neste ponto que o autor chega a conclusão que todos foram culpados. Os soldados que afirmavam apenas cumprir ordens poderiam ter se negado a executar indiscriminadamente mulheres e crianças. Houve quem o fez e nada aconteceu. Ele cita o caso de um soldado que passeou pela rua com o amigo judeu que já tinha sido obrigado a usar a estrela amarela nas roupas. Por sua rebeldia, ele foi expulso do exército mas não se dobrou. E por que ninguém falou contra o desaparecimento de vizinhos e amigos pelo simples fato de serem judeus? É este silêncio, essa capitulação muda que revela a colaboração.
Uwe Timm não busca a reconciliação. Ao contrário, vê em alguns aspectos da Alemanha de hoje, sintomas daquele mal antigo. A triste figura na qual o pai se transformou, seu fracasso nos negócios, não expiaram seu silêncio culpado. A dor pela perda do filho não justifica que ele quase ignore a existência da filha e tenha pelo mais jovem um mal disfarçado desdém. E a mãe que a tudo enfrenta sem aparente abalo sobra a descoberta que ela foi mais uma vítima de uma paixão. Nem a morte do pai impediu que ele permanecesse junto a ela. Memória, reflexão e coragem marcam ” À Sombra do meu Irmão” mostrando que as marcas da guerra seguem vivas na memória e no dia a dia de muitos.

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