A Criança Perdida.

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O diretor Jean Marc Vallée vem construindo uma carreira sólida e melhora a cada filme. Em “Livre“, atualmente em cartaz, ele nos faz, em alguns momentos, lembrar do falecido Robert Altman, diretor de ” MASH” e de uma obra-prima meio esquecida atualmente, ” Onde os Homens São Homens“. Seu cinema focaliza personagens que enfrentam enormes desafios e, na superação destes, experimentam um renascimento. Era assim em “A Jovem Rainha Vitória” e em ” O Clube de Compras Dallas“. “Livre” segue a mesma linha, mas os acertos são ainda maiores.
A protagonista se propõe a caminhar por uma trilha inóspita que a levará da Califórnia até a fronteira com o Canadá. Este desafio solitário é acompanhado por suas reminicências, por flash-backs de sua infância e juventude e, principalmente, de seu relacionamento com a mãe. São nestes momentos que compreendemos as raízes de seus descaminhos. A família desfeita pelo pai alcoólatra, a mãe que se apega ao otimismo para seguir em frente, imersa em uma luta que sabe perdida, mas a qual recusa se entregar. É justamente a perda da mãe, esta criatura que prima pela estabilidade que desencadeia um processo de decadência ao qual a personagem de Reese Witherspoon se atira. A caminhada e suas dificuldades é sua derradeira tentativa para reencontrar o equilíbrio.

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O diretor é hábil na utilização dos cenários e da própria idumentária da atriz principal. Seu primeiro contato com a mochila já deixa antever as dificuldades que irá enfrentar, e as marcas no corpo, assim como as bolhas nos pés e as unhas perdidas, refletem o sofrimento que suas lembranças trazem. Quando o filme inicia nós a vemos em um momento de sofrimento e raiva. É justamente o gesto de rebeldia que inicia sua reconciliação com a vida, sua readequação, representada pelo novo par de botas, desta vez do tamanho correto. E a medida que as razões de sofrimento são elaboradas, e a decadência é enfrentada, a mochila se torna mais leve, carregando somente o necessário. As fogueiras que são iniciadas com guias e manuais que ela não mais necessita representam a superação paulatina das dores do passado. Ao final, a ponte e o rio. A travessia rumo a uma nova vida e a um mundo do qual ela ainda não o que esperar. Mas a trilha foi vencida, as culpas e dores espiadas. E, no encontro com o menino e sua avó, ela se reconcilia com a criança perdida. O animal sacrificado no passado desta vez é salvo e entregue a sua família simbólica. E finalmente, o caminho se abre.
Há momentos de grande beleza ao longo da projeção, como o encontro com os hippies tardios na data da morte de Jerry Garcia e o concerto em sua homenagem, a travessia do córrego bravio, o encontro com a raposa em meio a neve, e a visão do planalto gelado que ela deve cruzar. E também os trechos de poemas que deixa anotados nos cadernos que marcam cada nova região que ela adentra, como o célebre “Stopping on Woods on a Snowy Evening” de Robert Frost.
Jean Marc Vallée utiliza uma trilha sonora primorosa, que vai de Leonard Cohen a Simon e Garfunkel, passando pelo já citado Garcia e seu Gratefull Dead. E aí ele também se aproxima de Altman ao fazer as canções serem entreouvidas, como um sussurro que acompanha a memória e a emoção de seus personagens. Ao final, a quase canção-tema é liberada, anunciando o fim que é também um recomeço. “Livre” é prova que ainda existe vida inteligente no atual cinema americano, mesmo que esta, muitas vezes, seja soterrada por barulhos e efeitos especiais sem sentido.

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