Nelson Rodrigues encontra Charles Bukowski.

O telefone de baquelite negro tocou. Nelson Rodrigues olhou-o intrigado. Era a primeira vez que tocava depois de muito tempo. Contemplou a folha em branco que acabara de ajeitar na máquina de escrever e amaldiçoou mentalmente o chamado. A idéia que tivera para um conto foi embora assim que o telefone soou.
— Alô, Nelson?
— Sim. Quem fala?
— É o Hank.
— Quem?
— Hank Bukowski, teu colega escritor.
Nelson Rodrigues acendeu um cigarro e desejou estar no estádio, radinho colado ao ouvido assistindo a uma partida de futebol. O que esse cara queria?
— Nunca ouviu falar de mim? — insistiu Bukowski.
Ele ouvira. Era um escritor alcoólatra que vivia entre os rejeitados pelo sonho americano e escrevia contos e romances recheados de palavrões e passados em ambientes sórdidos.
— Claro que sim.
— Precisamos nos encontrar.
O sujeito era louco mesmo. Eu estou morto, pensou Nelson, como ia me encontrar com ele? A não ser que ele também estivesse morto. Mas nada disso fazia sentido. Era a primeira vez que se dava conta que havia morrido.
— Nos encontrarmos para quê?
— Para falarmos sobre o mundo e a vida, mesmo que que as nossas já tenham acabado — respondeu Bukowski gargalhando.
— Não temos nada para conversar. Aliás, você é americano. Como está falando português? E sem sotaque!
Bukowski riu do outro lado da linha. Aquele sujeito era duro de raciocínio. Ele ouvia Nelson em inglês, e também sem sotaque.
— Olhe, isso não faz sentido. Vou desligar. Preciso me concentrar no conto que vou escrever — disse Nelson.
— Não faça isso. Se desligar tudo se apaga — insistiu Bukowski.
— Como se apaga?
Naquele momento se deu conta que não havia nenhuma lâmpada no lugar onde se encontrava. Apenas uma claridade que parecia emanar de todas as coisas. Eram apenas ele, a mesa, a máquina de escrever, o maço de cigarros, a folha de papel e um cinzeiro.
— Pode falar seu Bukows…
— … Nada de seu. Hank. Só Hank. Vamos nos econtrar.
— Mas como? Eu estou…
— Eu também. Mas vai dar certo. Pode confiar.
— Num bar em Porto Alegre, na cidade baixa, chamado ” Dirty Old Man”.
Hank era narcissista, pensou Nelson. O bar homenageava um de seus livros.
— Faz muito frio em Porto Alegre.
— Não nessa época do ano — disse Hank.
— Muito bem — cedeu Nelson — quando?
— Agora mesmo. Nos vemos na calçada.
Nelson ficou com o telefone na mão. O que aconteceria se o desligasse? Decidiu largá-lo sobre a mesa. Colocou o maço de cigarros no bolso do palitó, levantou-se e caminhou sem saber para onde.
Um sujeito alto, cabeludo e barbudo o esperava em frente ao bar, uma antiga casa, a fachada pintada de preto, um jovem sentado à porta distribuindo comandas.
— Hank? — perguntou Nelson.
— Quem mais seria?
Trocaram um aperto de mão e Bukowski o convidou para entrar. Passaram desapercebidos pelo jovem que entregava comandas. Costearam o balcão do bar e subiram a escada que levava ao andar superior. Sentaram-se a uma mesa, acenderam cigarros e uma garçonete trouxe dois copos com cerveja.

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— Eu não pedi nada — disse Nelson.
— Nem eu. Mas aqui é assim. Gostou do lugar? Se estivesse vivo passaria a mão na bunda das garçonetes. São muito gostosas — disse Hank devorando uma das moças com os olhos.
— Por que estamos aqui? O que você quer?
— Queria te dizer que gosto muito das suas peças e livros. Bem, quase todos, as crônicas sobre futebol me aborrecem. Acho o esporte aborrecido.
Nelson riu. O que aquele americano sabia de futebol? Eles chamavam de futebol aquela luta campal com a bola do qual tanto gostavam. Eram gente muito esquisita.
— Cago para todos os esportes. Meu negócio é escrever, beber e foder.
— Parece que estou lendo um dos seus livros.
— Somos o que escrevemos. E eu e você somos muito parecidos. Você é o Bukowiski brasileiro!
— Você está louco Hank! Eu escrevo sobre as angústias das pessoas, sobre as monstruosidades que permitimos que nos transformem. Você escreve sobre monstros prontos. E sem falar na linguagem…
— A diferença de linguagem nos aproxima ainda mais! Quanto mais distinta mais reforça nossa semelhança. Me diga uma coisa. Acha que o marido da Geni, de “Toda a Nudez será Castigada” se sentiria estranho em um dos meus contos? E você bem que poderia ter criado Harry Chinaski.
— Você enlouqueceu Hank. Bebeu demais.
— Nunca se bebe demais. A vida está sempre um gole a menos. E o que tanto lhe incomoda em nossas semelhanças?
— Elas não existem.
— Muito,bem. Continue se enganando. Achei que você fosse diferente.
— Como assim?
— Escritores como nós sabem que não existe céu ou inferno. Todos os monstros e demônios estão na terra. São o nosso tema.
— Mesmo assim…
— Nossos personagens tem todos a mesma feiúra, os mesmos sonhos inconfessáveis, o mesmos desejos sombrios. A diferença é que os meus se assumem enquanto os teus alcançam o prazer quando os realizam escondidos.
— Não sabia que você também era crítico.
— Eu não sou. Só estou sendo sincero com você.
— Nada disso faz sentido Hank. Estamos mortos. Não podemos estar num bar em Porto Alegre!
— Você não,se deu conta?
— Do quê?
— Nada disso está acontecendo.
— E como estamos aqui, frente a frente, você falando inglês, eu português e ainda assim nos entendendo?
— Já esqueceu como se faz Nelson? Viramos personagens de alguma história. Um escritor nos conjurou. Quando não precisar mais de nós voltamos para o nada de onde viemos.
Nelson Rodrigues sorriu. Personagem pela primeira vez…. Era melhor,aproveitar. Bebeu um gole da cerveja e trocaram um brinde. Bukowski olhou novamente para as garçonetes e desejou que o escritor que o estivesse manipulando fizesse com que uma delas lhe desse bola. Mas não teve esta sorte. Ele e Nelson se lavantaram, desceram a escada e, na rua, tocaram um aperto de mão. Caminharam em direções opostas e, sem se darem conta, sumiram na paisagem.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Marina disse:

    Maravilhoso, li três vezes e imaginei tudo acontecendo. Certamente na próxima visita ao bar imaginarei essa conversa.

  2. Genial pra caralho. Gostaria de mais contos desse tipo!

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