O Detetive Alcoólatra.

A relação dos detetives com a bebida é longa e proveitosa. Phillip Marlowe era um bom copo. Sam Spade não ficava para trás, e mesmo o tranqüilo Maigret regava suas investigações a generosas doses de todos os tipos de bebida. Mas nenhum deles se considerava doente. Ao contrário, viam no álcool um aliado, e consumi-lo em doses generosas era, para os dois primeiros, uma prova de ombridade. Mas a situação muda quando Lawrence Block cria Mathew Scudder. Ex-policial, agora trabalha como detetive sem a Licença de Investigador e freqüenta as reuniões do Alcoólicos Anônimos. Ele surge em ” Os pecados de Nossos Pais” , lançado em 1976. Desde então Scudder aparece com freqüência na literatura de Block, que também criou outros personagens, como o ladrão Bernie Rhodenbarr, ou Keller, um assassino profissional. Em 2003 ele publicou “Small Town“, mistério com doses de erotismo, e uma quase novidade em sua obra. Mas, apesar de todo o seu sucesso e versatilidade, a obra de Block foi pouco adaptada para o cinema.
Mas agora surge este interessante “Caçada Mortal“, primeira aparição de Scudder nas telas. Baseado em “Um Passeio no Cemitério“, o filme estrutura de maneira eficiente o personagem principal a partir de um roteiro que trai o original em determinados pontos para conseguir ser fiel a essência da criação. O solitário Scudder vive em um hotel e seu único convívio social são as reuniões dos AA. No filme em cartaz ele é incumbido de localizar a esposa seqüestrada e morta de um corretor de grandes quantidades de droga. Durante a investigação descobre que este é apenas mais um dos seqüestros com morte praticados pelo mesmo assassino.
O diretor Scott Frank, que começou a carreira como roteirista, aproveita de maneira eficiente o argumento original para criar um clima apavorante, já que os crimes resultam no esquartejamento das vítimas. Aqui ele faz do detetive um ser amargurado, que apesar de lutar contra o vício, é uma criatura presa a culpa de um assassinato involuntário. É este ser, aparentemente desprovido de motivos para viver, o único capaz de enfrentar o monstro por trás dos crimes.

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Existem momentos muito bem encenados, como a seqüência que explica as razões do trauma de Scudder, ou o tiroteio no cemitério, quando ele descobre o motivo pelo qual a menina sangra. Em momento algum a violência é gratuita, e o realismo das cenas de lutas e tiroteios realça a veracidade da narrativa. Frank aproveita de maneira inteligente o personagem do jovem morador de rua para mostrar que a violência e o desamparo não tem favoritos. É este humilhado quem contribui de maneira decisiva para que os fatos sejam elucidados. E na seqüência final, quando ele e Scudder dividem o mesmo plano, temos uma espécie de redenção para ambos.
Não estamos frente a uma obra-prima, mas de um espetáculo inteligente, feito de realismo de cena e personagens reais. Os criminosos que aparecem ao longo da narrativa são tipos comuns que exercem sua brutalidade sádica com requintes. Somente eles não buscam uma segunda chance. Os demais personagens são criaturas a deriva, mas que nutrem a esperança de um recomeço. Para eles ainda pode haver uma chance. Só os monstros são felizes em sua maldade.

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