As Quatro Estações Portoalegrenses — A Primavera.

O menino olhou a chuva salpicar o vidro da janela, aproximou-se um pouco mais e viu que esquecera a bicicleta no pátio. A chuva ensopava o guidão, o selim, os arames e os pneus. Era domingo e o entardecer expulsava o calor do dia chamando o frescor noturno. Ele olhou aquela cena e lembrou-se de outras, quando era ainda mais menino, nos seus primeiros anos de escola,quando a mãe ainda o levava e buscava da aula. É assim a primavera em Porto Alegre.
Ouviu os passos da avó na cozinha e pareceu ouvi-la dizer: “chega setembro, vem o vento dos Finados”. Era o vento que anunciava a troca de estação, a lembrança do inverno que se recusava a ceder lugar a nova época do ano e que segundo a tradição só amainava no segundo dia de novembro. Mas hoje já não havia mais vento. Fazia mais de duas semanas que tinham ido ao cemitério visitar o túmulo do avô. Hoje era final de domingo com chuva, onde o entardecer não se estenderia tanto e a noite chegaria fresca. As aulas chegavam ao fim, logo, ele teria as manhãs só para si, as tardes livres de estudo para poder assistir televisão, ler gibis e jogar botão. Com sorte, conseguiriam passar uns dias na praia em fevereiro, antes da retomada da escola. Mas agora, era primavera em Porto Alegre, chovia e o cheiro de terra molhada invadia os ambientes.

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O menino cresceu, tornou-se jovem, adulto, e agora, avançava na idade madura. Mas a cada primavera que inicia, recorda o cheiro da terra nas tardes de chuva nas primaveras da infância. Agora, o odor ficava distante do apartamento onde vive. Mas ele ainda se aproxima do vidro salpicado d’água, ainda busca na imagem borrada da paisagem lá fora, a criança que um dia fora, o mundo que dividia com seus pais, as cenas em preto e branco da televisão que dominava a sala, e os sentimentos das primaveras portoalegrenses de sua infância, e os sonhos que tanto acalentou. Mas hoje, talvez nem mesmo a chuva seja mais a mesma. Restam apenas os restos dos ventos invernais, que luta até o dia do mortos, prometendo voltar em maio, mesmo que agora, seja primavera em Porto Alegre.

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