O Cinema Perdido.

Durante muito tempo diversas cinematografias produziram aquilo que se convencionou chamar de “pequenos filmes“. Foi um nome carinhoso que se cunhou para definir películas aparentemente singelas, com tramas simples e altas doses de emoção. Embora não desprezassem o bom humor, eram a ternura e os sentimentos seus focos principais. Longe de serem obras-primas, estes trabalhos conquistavam os espectadores. Independente do gênero ao qual se dedicassem, sua estrutura não se alterava. Talvez o melhor exemplo deste tipo de filme seja ” Harry, o amigo de Tonto“, que Paul Mazurski, falecido este ano, dirigiu em 1974. Ao retratar o cotidiano de viúvo, cuja única companhia era o gato Tonto, Mazursky criava uma trama simples e ao mesmo tempo repleta de significados enquanto refletia sobre o passar do tempo. Na Itália, o grande Dino Risi dirigiu um pequeno filme inesquecível, ” Aquele que sabe viver” com uma marcante interpretação de Vitório Gasmam. No Brasil, Daniel Filho dirigiu em 1975 ” O Casal”, com os então jovens José Wilker e Sonia Braga, um filme que, revisto recentemente, provou suas qualidades.
Mas com o passar do tempo, este sub-gênero praticamente desapareceu. O cinema, principalmente aquele feito nos Estados Unidos, sucumbiu a interesses puramente comerciais e afoga as telas com super – heróis em tramas pueris e mal acabadas. Nomes como os de John Cassavetes nos anos 70 e 80 do século passado não encontraram sucessores. Edward Burns chegou a ensaiar alguns trabalhos com estas características ( “Nosso tipo de Mulher“em 1996 e “Paixões em Nova Iorque“, de 2001), mas o escasso rendimento das bilheterias parece ter soterrado sua carreria. Por isso é salutar a chegada a nossas telas de um filme como ” O Último amor de Mr. Morgan“.

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Realizado na França por Sandra Nettelbeck ele narra o cotidiano de um professor que vive em Paris. A morte da esposa robou-lhe a vontade de viver e ele perambula pela cidade sem saber o que fazer de seu tempo. É quando encontra Pauline ( Clemence Poésy) uma jovem professora de dança. Solitários, eles vão lentamente preenchendo o cotidiano um do outro e criando uma espécie de mundo paralelo, onde se apoiam e encontram um novo rumo para suas vidas. É nestes pequenos momentos cotidianos que o filme encontra seus melhores momentos. A sequência do almoço no parque, quando ela traz cachorros-quentes para que eles comam sentados num banco é por demais significativa. O mesmo vale para o trecho passado em Saint-Malo, lugar onde os fantasmas parecem se conjurar preparando o epílogo. Não estamos frente a uma obra-prima, mas sim a um típico exemplar de “pequeno-filme”, com uma delicadeza e ternura que o cinema atual parece ter perdido. Michael Caine, brilha como Mr. Morgan, provando que a cada filme ele parece encontrar novas nuances para sua entonação, que sua presença em cena se torna mais magnética. Mesmo com seus problemas, “O Último Amor de Mr. Morgan” é um filme que se assiste com prazer e emoção. O que não é pouco para o
cinema nos dias de hoje.

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