O Maior Filme da História do Cinema.

Periodicamente os críticos de cinema mundo afora se reúnem para escolher os cem melhores filmes de todos os tempos a pedido do American Film Institute. Durante vários anos o campeão foi ” Cidadão Kane”, o portento cinematográfico de Orson Welles. Na última edição, ele foi desbancado por “Um Corpo que Cai”(Vertigo) de Alfred Hitchcock, outra maiúscula obra-prima. O Viajante não sabe em qual lugar ficou “Lawrence da Arábia” de David Lean, mas para ele, este é o maior filme já feito. Todas as possibilidades do cinema, esta arte mista, estão ali exploradas a perfeição, regidas por um dos grandes mestres de todos os tempos. O filme, agora reprisado nas sessões “Clássicos Cinemark”, volta em uma preciosa cópia digital, que realça ainda mais sua fotografia e reconstitui a montagem original, que foi restaurada pelo próprio David Lean em 1988 quando o filme foi reapresentado no Festival de Cinema de Cannes.
Thomas Edward Lawrence, o “Lawrence da Arábia”foi uma personalidade fascinante. Erudito, guerreiro, poliglota, obcecado por seus objetivos, era também um homossexual atormentado com tendências massoquistas. Seu livro “Os Sete Pilares da Sabedoria” onde narra sua campanha no Oriente só encontra rival nos “Comentários da Guerra da Gália” de Caio Júlio César”. Em vida recusou a glória que seu nome alcançou e mesmo tendo se tornado uma lenda viva, preferiu a solidão e o retiro. Morreu em um acidente de motocicleta com apenas 47 anos. Ele vivia isolado em uma pequena casa de campo após ter dado baixa do exército. Existem várias biografias a seu respeito tamanho o fascínio que este homem singular exerceu sobre a História da primeira parte do século XX. A imagem que ilustra este post é do verdadeiro Lawrence, retirada do livro “Lawrence da Arábia” de Malcolm Brown.

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David Lean é um dos grandes nomes do Cinema. Para descrever sua maestria, um crítico francês criou a expressão “camera-stylo“, afirmando que seus filmes davam a impressão de serem escritos ao invés de filmados, tamanha a perfeição das imagens, da direção dos atores e da construção dramática empregada. Ele era um perfeccionista comparável a Stanley Kubrick, apaixonado pela exatidão. As tempestades de areia que aparecem em “Lawrence da Arábia” não são ventos fornecidos por enormes ventiladores. Ele esperou por ventanias no deserto do Marrocos, onde muitas cenas foram filmadas, para rodar estas seqüências. Nunca o sol e a imensidão dos desertos apareceu no cinema como nesta obra superior. Alia-se a isto a utilização da música. Jamais uma trilha sonora foi tão importante em um filme. O compositor Maurice Jarre criou uma verdadeira sinfônia, que Lean utilizou com genialidade, fazendo dela quase um personagem do filme. A seqüência em que Lawrence resgata o árabe perdido no deserto é um claro exemplo. Na tela, a imagem imprecisa, deformada pelo calor. Até um ponto escuro surgir, ínfimo na paisagem desolada. Ele cresce aos poucos e escutamos ao fundo os gritos de” Awrence, Awrence”, que é como os árabes pronunciavam seu nome. A câmera avança, primeiro lentamente, depois com maior velocidade. Enquanto isso, a música cresce, transformando o adágio inicial em um fanfarra, tornando-se mais intensa até que a tarefa, tida por impossível, se prova realizada.
Relato de guerra, o filme economiza nas demonstrações de brutalidade dos combates, optando por planos gerais que evidenciam o impacto daquelas ações. A tomada de Aqcaba, os ataques as ferrovias, e a inesquecível cena a beira do oceano, quando todo o drama íntimo de Lawrence fica exposto, são verdadeiras aulas de como se constrói um filme. Aliado a isso, Lean reflete sobre o colonialismo, utilizando para tal a figura do general Allenby, comandante das tropas inglesas no local. Ele é o contrapondo a figura principal. Enquanto Lawrence sonha em criar um país e entrega-lo a seus nativos, Allenby é o explorador que busca lucro e possessões para seus empregadores. Nenhuma reflexão sobre aquele período histórico estará completa sem a visão deste filme.
Lean faria apenas mais três filmes. “Doutor Jivago“, “A Filha de Ryan“, uma adaptação não declarada de Madame Bovary de Gustave Flaubert, e dez após este, seu canto do cisne, “Passagem para a Índia“. Todos são magníficos, principalmente ” A Filha de Ryan“. Mas ele será sempre lembrado por “Lawrence da Arábia” que está para a História do Cinema como a “Odisséia” e a “Ilíada” estão para a História da Literatura. São marcos que estabelecem padrões, que iluminam caminhos e pelos quais ninguém passa incólume.

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