As Quatro Estações Portoalegrenses — O Inverno.

O rapaz ergue a gola do casaco e afunda a toca na cabeça. Pelo pescoço escapa um tufo de cabelos encaracolados. Enterra as mãos nos bolsos e avança. A porta de vidro se abre automaticamente e a primeira onda de ar gelado o atinge. Ele se encolhe mas segue adiante. A tarde ainda não acabou para os relógios mas o entardecer se antecipou e as luzes dos postes e carros lutam contra a escuridão da noite sem lua nem estrelas. É o inverno em Porto Alegre.
Ele segue em frente olhando a paisagem de gente encolhida de frio, de ônibus e carros que tem parte dos vidros embaçados pela combinação de frio e umidade. No alto das luzes a neblina já se insinua e a luz amarelada ganha um contorno leitoso, como se escondesse um fantasma que ameaça se materializar naquele momento. Um som meio mecânico meio bicho emana do tráfego sugerindo um pássaro noturno prestes a surgir. Ele sorri destes pensamentos. É apenas mais uma noite fria que o rapaz cruza a caminho de casa.
Há ruas que quase não mais reconhece. As casas de sua infância sumiram, as pequenas lojas e revistarias não mais resistiram. Os cinemas também se foram. Resta o frio, estóico sobrevivente enfrentando a tudo, garantindo o sentimento único daquele período do ano, dizendo que ser suficiente para conservar lembranças e sensações perdidas no tempo. Sensações tão importantes para ele e para a cidade que sente como parte do seu corpo, um órgão vital do qual dependente para seguir vivo.
E nas ruas do Centro, que rapidamente se esvaziam enchendo ônibus e carros, escoando na estação de trens que cruza para outras cidades, pairam lembranças e sensações, de um dia que já morreu e de tempos que não mais existem. E nas praças, as árvores de galhos quase nus escurecem repentinamente, prometendo revelar segredos aqueles que se atrevem a mergulhar em seu negrume noturno.

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É Inverno em Porto Alegre. Tempo de fantasmas, de chuvas intermináveis, de ventos gelados e dias curtos. Mas há vida no interior das moradas. Das mais simples àquelas que se aquecem com facilidade, as pessoas se reúnem em volta das mesas, se envolvem em cobertores ou tomam uma bebida quente que sela a união daqueles momentos. É inverno em Porto Alegre e no silêncio das noites geladas, a vida subsiste, para reviver a cada manhã. O rapaz sorri. Avistou as luzes de casa, e em sua mente, já é capaz de antecipar os odores do jantar.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Elis disse:

    schön poetisch, wie nur du schreiben kannst!!

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