Grandes personagens, pequenos escritores.

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A literatura possui personagens que saltaram da ficção para uma existência quase real, tamanha a força de suas criações. Shakespeare nos legou Hamlet, Lady Machbet, Romeu e Julieta, Próspero e Calibã. Cervantes criou um Don Quixote tão real que seu nome até adjetivo se tornou. Dostoiévski concebeu Raskolnikov, o atormentado assassino de ” Crime e Castigo”. O cineasta Alfred Hitchcock se tornou seu próprio personagem e eternizou sua figura com pequenas aparições em seus filmes. Phillip Roth produziu Nathan Zuckerman, alter-ego e símbolo das angústias do homem moderno. Todos são talentos superiores, apontados como gênios, marcos em seus tempos e arte. Natural que suas criações se tornassem imortais. Mas o que dizer de escritores cuja obra famosa se resume a um livro ou a invenção de um personagem, sendo o restante de sua produção ignorada? E ainda mais, eles são considerados menores, incapazes de dar transcendência a seus trabalhos. E existem vários exemplos. Quem conhece os demais trabalhos de Edgar Rice Burroughs, o criador de Tarzan? Eles existem e são muitos, a maioria no campo da ficção científica. Mas há exemplos ainda mais interessantes, um antigo e outro atual.
Abraham Stocker não escreveu somente “Drácula”. Ele enveredou pelo terror e mistério em outros livros, hoje completamente esquecidos. Escritor limitado, em “Drácula” ele criou um romance polifônico, conduzindo a narrativa via cartas de um personagem para o outro, ou através de trechos de diários íntimos ou profissionais. Além disso, criou modelos até hoje utilizados. O tema do vampirismo já aparecera em outros livros, mas nenhum deles causou o impacto de “Drácula”. Nestes outros trabalhos não existia uma figura como a do professor Van Henlsing, mistura de cientista e homem de ação que persegue o Mal sem descanso. As vítimas do monstro são jovens inocentes e seus vingadores são médicos e cientistas. Estamos no final do século XIX, o mundo de Pasteur e principalmente de Freud, onde a Ciência nocauteia as crendices. Nada mais natural do que fazer destes modelos personagens de uma caça a um monstro. Lido hoje, o romance mantém seu encanto e suspense. As inúmeras adaptações para o cinema ajudaram a manter o frescor desta narrativa gótica que segue insuperável.

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Outro exemplo é o escritor americano Thomas Harris. Antigo repórter policial, ele é um escritor nada além de razoável, mas com o mérito de ter criado um dos mais enigmáticos personagens da segunda metade do século XX — Haniball Lecter, o psicanalista canibal. Ele aparece pela primeira vez em “O Dragão Vermelho”. O interessante é que Lecter é um personagem secundário do romance. O protagonismo é dividido por Will Grahan, o agente do FBI que o capturou e Francis Dolarhide, o assassino serial conhecido como “A Fada Do Dente”. Mas a figura do médico aprisionado em um manicômio sobrepuja a todos. Refinado e erudito, Lecter, mesmo por detrás das grades, manipula a todos, transformando perseguidores em perseguidos. Sua mente, ao mesmo tempo lúcida e doentia, desconhece o medo e o remorso. O romance, adaptado para o cinema inicialmente por Michael Man, rendeu um excelente filme que no Brasil recebeu o título de “O Caçador de Assassinos”. Mas Lecter entraria definitivamente para o imaginário popular a partir de ” O Silêncio dos Inocentes”. Ainda um personagem coadjuvante, ele ajuda uma agente novata, Clarice Starling a perseguir outro assassino serial, este apelidado de “Bufalo Bill”, devido ao hábito de esfolar suas vítimas. Lecter novamente manipula a todos e aqui exibe ainda mais sua erudição e refinamento. Transformado em filme, celebrizou Anthony Hopkins como Lecter e ajudou consagrar a figura deste monstro moderno. Houve mais dois livros e filmes sobre o personagem, mas Harris perdeu a mão e nenhum deles merece atenção. A pergunta que fica é:
— Como escritores menores conseguem criar personagens tão marcantes?
A resposta talvez esteja em outra pergunta.
— Por que teóricos e eruditos brilhantes como Umberto Eco, ou o brasileiro Paulo Francis não conseguem produzir livros apaixonantes?
Criar é um processo inconciente. De nada adianta a teoria, a vivência ou a erudição. Há um momento em que a faísca se produz e sobrepuja a tudo. Neste momento, os conhecimentos ficam subjugados a este transe que se produz a medida que o trabalho avança. São acessórios, nada mais. . e Harris experimentaram esta inquietação uma ou duas vezes. E foi o que bastou. Talvez Eco e Francis jamais tenham esquecido suas leituras teóricas e escrevam como se analisassem a própria obra. Sem paixão. Quanto aos gênios, a estes não se explica. São gênios. E isto basta.

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