Os Novos Monstros.

Em uma seqüência de “O Lobo de Wall Street“, os corretores, reunidos em uma sala discutem as qualidades de uma prostituta. Ao sentirem a aproximação de um estranho ao grupo, começam a bater no tampo da mesa e gritam em uníssono: “Ela é uma de nós, uma de nós, uma de nós!” É uma clara alusão ao clássico ” Monstros” dirigido por Tod Browing em 1932. Neste filme, um grupo de seres humanos portadores de deficiência física, é exibido como atração em um circo de variedades. Sabedora que o anão integrante do espetáculo possui uma fortuna, a trapezista casa-se com ele, e junto com seu amante, o alterofilista da trupe, planeja envenená-lo para ficar com sua riqueza. A cena citada por Scorcese é a do casamento, quando estes seres, tão solidários e humanos quanto imperfeitos fisicamente, aceitam a esposa de seu companheiro no grupo. Como no clássico de Browing, aqui os monstros são belos, elegantes e ricos. Pouco lhes importa seus semelhantes ou as conseqüências de seus atos. Buscam a satisfação constante num anseio incapaz de ser saciado. E quanto mais conseguem, quanto mais objetivos atingem, mais se desumanizam. É a temática dos grandes filmes do diretor, como os soberbos ” O Touro Indomável“, “Cassino” e “Os Bons Companheiros“.
Saem de cena os mafiosos e assassinados de aluguel e entram os criminosos de colarinho branco, que utilizam o telefone e os argumentos como armas mortais. A violência física abre lugar para orgias de sexo e drogas onde não existem limites. Mas não estamos frente a um universo maniqueísta. Este Jordan Belford (Leonardo DiCaprio) ao mesmo tempo que não tem escrúpulos morais ou pessoais é capaz de ajudar uma funcionária recém contratada a pagar a educação do filho ou a sacrificar sua liberdade para não incrimar um amigo. E esta personalidade multifacetada o torna ainda mais assustador pois o humaniza, ao aproximá-lo do cotidiano.

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Scorcese, um dos grandes nomes do cinema em todos os tempos nos oferece um trabalho narrado com maestria, utilizando todos os recursos que o cinema oferece. Da narrativa em off a metalinguagem, dos planos gerais a impressionantes movimentos de câmera, como os que acompanham a maioria dos pronunciamentos de Jordan aos seus funcionários. A seqüência em que Jordan, derrubado pelas drogas, necessita rolar por uma escadaria e arrastar-se até o carro é primorosa, e sintetiza a completa degradação daquele homem que, ao angariar fortuna, perdeu-se como pessoa numa irreversível decadência. Em determinado momento é citado o nome de Gordon Genko, o protagonista de “Wall Street” dirigido por Oliver Stone em 1987 e vivido por Michael Douglas. Mas comparado a Jordan Belford, Genko é um simples punguista. O protagonista do filme hora em cartaz não se importa em passar uma imagem digna ou refinada. Seu recurso é amedrontar a todos com seu dinheiro e ambição. Seu antípoda é o agente do FBI, o homem comum a quem Belford tanto despreza, pois o enxerga como um ser desprotegido e incapaz de comandar seu destino.
O realismo do diretor não se resume a veracidade das imagens, mas se amplia na severidade com que lida com seus personagens, despindo-os de qualquer idealização. Da linguajar agressivo, ao desrespeito a qualquer limite, estamos em frente aos novos monstros, cada vez mais sofisticados em suas maldades e nada sutis na agressividade dos gestos, como demonstra a seqüência em que um corretor é demitido porque limpava seu aquário, ainda que o expediente não houvesse começado. Nada importa, a generosidade é um defeito e, como diria GordonGenko, ” a ganância é uma virtude”.

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