A Estranha Família de Bárbara.

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O diretor John Wells, egresso do mundo das séries de televisão, mostra pulso e criatividade neste perturbador ” Álbum de Fámilia” ( August, Osage Country). O filme faz jus a máxima de Leon Tolstoi, que abre seu clássico “Ana Karenina“, e afirma que:
“Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma a sua maneira.” O que vemos durante a projeção é um embate assustador entre os membros de um grupo que em nada lembram pais e filhos. Algo se perdeu em suas vidas e o enlevo inicial foi substituído pela amargura e a dor. As razões desta derrocata não são explicadas mas durante a narrativa o realizador espalha indícios no desenvolvimento da trama.
Baseado em uma peça de Tracy Letts, de quem o diretor William Friedkin adaptou os incômodos “Possuídos” e “Killer Joe“, o filme é marcado pelo poder da palavra, mas estrutura-se como obra cinematográfica graças ao uso inteligente do cenário e dos figurinos. Na seqüência que abre a narrativa vemos o pai, um poeta e professor, agora entregue a bebida e ao niilismo, contratando uma jovem para ajudar a esposa enferma. Ela, um poço de amargura e rancor (interpretada com o brilho habitual por Merryl Streep), é viciada em remédios, que lhe roubam a consciência e os limites. Estas vidas amargas são abaladas com o desaparecimento do marido, que obriga a família a se reunir. É a partir daí que que a tormenta se estabelece, principalmente após a chegada de Bárbara (Julia Roberts), que em muitos pontos reflete o comportamento da mãe. Na impressionante seqüência da refeição após o funeral os ressentimentos explodem e muitas revelações vem á tona. Ficamos sabendo que Bárbara também escreveu (o romance folhado e com a dedicatória á mãe) mas que, para a decepção do pai, preferiu dedicar-se á família ao invés da literatura. Surge o passado de pobreza e a luta para garantir o futuro, que se transformou em avareza e mesquinhez, até a chocante revelação sobre as origens do sobrinho.

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Tracy Letts já havia colocado a família no centro dos conflitos em “Killer Joe” e aqui, ao invés de um matador de aluguel como deflagador dos conflitos, o responsável é o desaparecimento da figura paterna. A descoberta dos segredos vai explicar as desfunções de cada personagem e é neste momento que Wells demonstra suas habilidades. No momento em que a mãe revela a origem do sobrinho para a única filha que havia ficado ao seu lado, ela e Bárbara vestem praticamente a mesma roupa. Os últimos ressentimentos vem á tona e é chegado o momento de uma decisão final. A estrada que surge á frente é ondulada e tortuosa, mas ela decide seguir em frente. Quanto a mãe, resta somente o consolo da antiga desprezada, que está no alto da escada e abaixa-se para acolhê-la.
Wells exige de seu espectador, mas entrega um filme rico em significados e de um artesanato primoroso. Em alguns momentos lembra o grande Joseph Mankiewicks, que valorizava a palavra sem jamais submeter a imagem.

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1 comentário Adicione o seu

  1. miriam disse:

    O filme é maravilhoso e perturbador. Conseguiste captar todas as angústias que compõem a trama. vale a pena ver e ler o comentário.

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