Paulo Francis Ri.

O cinema brasileiro comemora um salto no percentual de ocupação das salas de exibição no País. De 10,2% em 2012 pada 19% em 2013. Mas o irônico nestes números são os filmes responsáveis por estas taxas. A exceção de “Tropa de Elite 2 “, os sucessos nacionais são comédias de qualidades mais do que duvidosas. Filmes como ” E ai, comeu?” ,”Minha Mãe é uma Peça” e o mais recente, “Crô“. Uns aproveitam personagens populares de novelas de televisão, outros utilizam o humor rasteiro, as vezes quase agressivo na sua formulação chula. Vivem de estereótipos ao invés de personagens, não hesitando muitas vezes em mergulhar no grotesco. Talvez este seja um fenômeno comum a muitas cinematografias, o que explicaria o sucessos de filmes como os da série “Jackass” nos EUA. Ainda que assim seja seja, a média da qualidade de produção em outros países é muito superior. Basta citar o exemplo dos vizinhos argentinos, cujos sucessos de qualidade em seu mercado interno percorrem o mundo.
O falecido Paulo Francis, do alto de seu sarcasmo dizia que o caminho para o cinema brasileiro era o modelo das chanchadas da Atlântida, que o povo brasileiro queria Oscarito e Grande Otelo, os cômicos mais populares do período. Se vivo estivesse, o grande jornalista estaria dando risadas ao ver sua profecia tornada realidade. Mas será mesmo esta a saída para a sétima arte brasileira? Será que o nosso povo não quer se ver refletido na tela a não ser via chavões e vulgaridade? Por que filmes de qualidade e de fácil comunicação com o público como “Xingu” e ” Serra Pelada” não fizeram sucesso? Talvez seja necessário regredir um pouco no tempo em busca de respostas.
As chanchadas refletiam um mundo ainda idealizado, onde pobreza e desigualdade social eram vistos de maneira ingênua, onde os conflitos se resumiam a desacertos amorosos e onde a violência se resumia ao conflito final entre o “mocinho” e o “bandido”. Em alguns casos eram paródias de sucessos hollywoodianos como “Nem Sansão nem Dalila” ou “Matar ou Correr“. Um cinema sem identidade e um modelo que se esgotou sepultado pelo Cinema Novo, movimento que radicaliza no sentido contrário. Conflitos sociais, abordagens intelectualizadas, e construções herméticas que não se importavam com o diálogo com o público. Este, orfão do cinema que conseguia entender, volta-se para a televisão, o veículo emergente no país nos anos de 1960. Sua força foi e é tamanha, que criou uma estética própria e terminou por imopô-la ao cinema. Quando ela não está presente em uma produção naciaonal, o público simplesmente a ignora. E esta fórmula não se resume ao estilo, inclui também a temática abordada, sempre muito próxima a das novelas de televisão.

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Este universo não tem lugar para a saga épica dos irmãos Villas-Boas, que garantiram aos índios brasileiros uma reserva de terras maior que toda a Bélgica, e que foi narrada com inspiração por Cao Hamburguer no belo "Xingu“. Muito menos existe espaço para um fato marcante em nossa história recente como foi o garimpo de Serra Pelada, o maior da história da humanidade, onde dois amigos vão em busca da fortuna, fatos narrados no excelente “Serra Pelada” dirigido por Heitor Dália. São filmes calcados na realidade e em personagens sólidos, onde os conflitos se estruturam a partir da realidade narrada. Com interpretações que escapam do naturalismo da televisão, causam um choque no espectador desavisado. Há saída para esta situação?
Sim, e ela está nas mãos do senhor de todas as verdades — o Tempo. Modelos se esgotam e são substituídos. A entropia traz a criação e talvez um híbrido entre estas tendências se estabelecerá ou talvez um outro mais radical caia no gosto do público. Entre estas duas vertentes atuais ainda existe o chamado “cinema de autor”, cultivado por nomes como Cláudio Assis e Cléber Mendonça Filho entre outros, mas estes não se importam com o público, imersos em suas propostas radicais de cinema. Um erro? Antes de tudo uma proposta, que será julgada pelo mesmo juiz acima mencionado.
Enquanto isso, fiquemos com o riso de Paulo Francis e lembremos seu sarcasmo erudito. Talvez, ao comparar o quadro atual ele diria:
— Whalllll , eu não falei?
E ajeitaria seus óculos de lentes grossas enquanto a imagem perderia o foco.

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