Retratos Brasileiros.

A recém concluída Seleção de Filmes Bourbon exibiu três documentários nacionais que comprovam a força do gênero em nossa cinematografia: “Cauby” de Nelson Hoineff, “Mazzaropi” de Celso Sabatin e “Os Últimos Cangaceiros“‘ de Wolney de Oliveira. Todos integram uma corrente muito particular do documentarismo brasileiro. Não estamos frente a biografias mas sim ante uma espécie de crônica em imagens sobre o que estes personagens representam. Em todos, os realizadores, com estilos e condições distintas, exibem um total domínio de suas intenções, o que torna estes registros fascinantes. Através deles recuperamos a memória de um país, que não mais existe, nos ajudando a entender o mundo com o qual nos defrontamos.
Cauby” ilustra a trajetória do famoso cantor popular, alternando momentos do passado com os dias de hoje para demonstrar o fascínio que este artista exerce sobre diversas gerações. Sem jamais se vincular a um gênero específico, ele transitou pela época dourada do rádio, pelo rock nacional dos anos de 1950, com passagem pelo cinema musical americano sob o pseudônimo de Rob Cobb. É neste cantor aparentemente sem personalidade, ainda ativo com mais de 80 anos, que o diretor Nelson Hoineff retira sua reflexão sobre a realidade. Como em muitos momentos na história brasileira, Cauby parecia ter encontrado o caminho ideal, o nicho para que sua verdadeira arte porsperasse. Mas o tempo se encarregou de mostrar a realidade e hoje o cantor e o país encaram suas verdadeiras faces. Enquanto Cauby se maquia e exibe sua indefectível peruca encaracolada, usando roupas espalhafatosas, o Brasil encara o mundo sem glamour da concorrência e do desafio. É é ao som dos velhos sucessos do cantor que ele encerra a narrativa, mas sem melancolia, exibindo o universo particular deste ídolo de muitas gerações. Há uma saída? Para Cauby sim. Mesmo que seja com uma face que pouco lembre o interpréte original de “Conceição”.
A trajetória de Amâncio Mazzaropi é uma das mais bem sucedidas do cinema brasileiro. Ele criou um tipo único, o caipira aparentemente ingênuo mas que enxerga a vida com a simplicidade daqueles que conhecem a luta pela mera sobrevivência. Nascido nos circos que viajavam pelo interior do Brasil nos anos 50 e 60, ele ergueu um painel sobre o básico, que faltava a muitos naquele período. Seu “Jeca,” inspirado no personagem criado por Monteiro Lobato, é a vítima do período de industrialização que se iniciava no país. Tanto o campo quanto a cidade mudavam, tornando aquele homem aparentemente simplório, um anacronismo em seu próprio tempo.
O diretor Celso Sabatin percorre a trajetória deste artista desde seus primeiros trabalhos até um derradeiro depoimento que encerra o filme e dá testemunho da lucidez que ele possuía. Mazzaropi foi dono de seu próprio estúdio, fechava a Avenida São João em São Paulo para a premiére de seus filmes que lotavam os cinemas país afora. Após sua morte foi erigido um museu Mazzaropi que até hoje recebe visitantes e admiradores da obra do cômico. Ator de formação circense, aprendeu cinema observando os sets de filmagem e o trabalho de técnicos e diretores. Ainda que não tenha dirigido, costumava supervisionar toda a produção.
Vistos hoje, seus filmes sofreram a ação do tempo, e seu humor ingênuo e malicioso não encontram lugar no universo da correção política atual. Mas vale lembrar o trecho de um de seus trabalhos mostrado pelo documentário onde ele fala sobre política. Se há reacionarismo na manifestação, há sagacidade na análise do processo político.

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Os Últimos Cangaceiros“de Wolney de Oliveira é um sensível relato sobre a descoberta do último casal de cangaceiros, integrantes do bando de Lampião, Moreno e Durvinha. Encontramos o casal já nonagenário, mas exibindo total lucidez apesar das vozes e aparências enfraquecidas. O diretor utiliza trechos do célebre filme de Benjamim Abraão, o único a mostrar imagens animadas do célebre bandito, para nos apresentar o jovem casal de cangaceiros que iria escapar da emboscada de Angicos onde Lampião foi morto. Este ataque, marca o declínio definitivo desta forma de crime, com o avanço das polícias e o fim daquela atividade marginal.
Mas Oliveira não está interessado numa análise histórica. Quando esta se faz necessária busca o depoimento de Frederico Pernanbucano de Mello, o maior historiador do cangaço, que situa fatos e personagens com a maestria do conhecedor.
Não há endeusamento deste antigo casal de malfeitores. O que existe é uma certa ironia nas imagens que retratam a maneira como eles são recebidos na cidade que muitas vezes ajudaram a rapinar. Ainda que vítimas de um mundo e um tempo de extrema pobreza e poucas escolhas, eles mergulharam na atividade criminosa mais bem organizada da primeira metade do século passado e não passaram imunes a este universo. Um mundo onde pais e filhos viviam separados, onde a fuga constante impedia que famílias se formassem.
O realizador também recorre a obras de ficção para ilustrar a jornada do casal que foge do sertão de Pernanbuco para se refugiar no norte de Minas Gerais em meados dos anos de 1940. Ali vemos momentos de ” O Baile Perfumado” de Lírio Ferreira e “Belo Horizonte” do grande Humberto Mauro. Entremeado a depoimentos de familiares, os fatos históricos servem de crônica a este muito particular casal de retirantes. Ao final existe um depoimento emocionado de Durvinha ao lembrar seu primeiro companheiro de cangaço, morto em combat, e e uma revelação surpreendente. Moreno escuta a tudo impasssível, como alguém que já viveu momentos piores e ouviu verdades ainda mais definitivas. Uma pequena jóia brasileira a espera de ser descoberta, “Os Últimos Cangaceiros” relembra um período tão terrível quanto lendário da história brasileira.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Um dos ícones da comédia brasileira,seus filmes mesclam o humor aos costumes do homem da roça,incluindo um pouco de drama em quase todos seus filmes,Mazzaropi,tive a alegria de conhecê-lo pessoalmente,não é muito diferente do cinema.

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