Notoryus Glutão e o duelo de cachoros quentes.

Alguns afirmavam que ele viera do Sul do estado, da fronteira com os países do Prata. Chegavam a narrar fatos de sua infância, assegurando que era natural de Uruguaiana. Outros argumentavam que era serrano, que seus longos silêncios denunciavam o homem daquela região, relatando que nos primeiros anos da adolescência, fora jogador do Atlético Serrano de São Francisco de Paula.
Mas a verdade é que ele apareceu em Porto Alegre para cursar Música na Universidade Federal. Dizia idolatrar os dois “B”,”Bach e Bob Dylan”, além de reverenciar Duke Ellington, ” o único clássico popular da História da Música”. Mas o que o tornou famoso não foi seu talento como violonista nem sua prodigiosa memória e sim seu interminável apetite. Tanto que seu nome de batismo foi esquecido e tornou-se célebre pelo apelido.
A origem deste, assim como a de seu titular, também é nebulosa. A versão mais aceita é que ele lhe foi dado por Isaías Caminha, professor de Cultura Latina no curso de Letras e que, melômano como seu interlocutor, sentava-se frente a este em intermináveis discussões sobre música regatas a refrigerantes e croquetes, consumidos em quantidades lendárias entre os argumentos de cada um. Assim nasceu Notoryus Glutão.
Magro como um vara-pau, era o terror dos rodízios de pizza, das churrascarias de espeto corrido e dos bufês de cachorro quente. Seu lema era:
— Quantidade acima de tudo.
Nem mesmo a contestada qualidade do Restaurante da Universidade lhe contia o apetite. Seu prato era conhecido como “morrinho”, devido a forma que ele ajeitava a comida para que a quantidade desejada ali se acomodasse. Nunca encontrara um adversário a sua altura no seu apetite, mas seu mais conhecido desafiante foi Sibelius, colega do curso de Música e que ganhou o apelido devido a sua devoção ao compositor finlandês.
Ao contrário de Notoryus, cuja magreza escondia a fome incurável, Sibelius revelava seu apatite nas formas do corpo, dispostas em mais de um metro e noventa de altura, a boca larga revelando dentes que faziam lembrar os velociraptors dos filmes de Spielberg.
Tudo começou em uma manhã de quarta-feira, numa conversa sobre os cachorros-quentes oferecidos pelas carrocinhas que ladeavam o Mercado Público. Sibelius afirmou ser capaz de comer mais de dez ininterruptamente. Notoryus encarou-o como se ouvisse o arpejo de um violino desafinado e fulminou:
— Quantidade facilmente ultrapassável para um verdadeiro apreciador da iguaria.
O bar da faculdade de música silenciou. Sibelius encarou o colega e devolveu a altura:
— Mais fácil de dizer do que de fazer.
— Posso demonstrar a qualquer momento — retrucou Notoryus— e para quem quiser ver— fulminou encarando a platéia ao redor.
O silêncio deu lugar ao burburinho e partidários de um e outro organizaram o encontro. Sábado a noite, após a sessão de “Psicose”, que estava sendo reapresentada pelo Cinema Um.
Era uma noite amena de princípio de Outono e o grupo se reuniu frente a uma das entradas do Mercado onde as carrocinhas se alinhavam, cada uma iluminada pela claridade de seu respectivo Liquinho.
— O cachorro quente deve ser “completo”. Nenhum tempero pode ser recusado — sentenciou Notoryus.
— E se tiver opção de duas linguiças ou salsichas, esta deve ser a escolha — devolveu Sibelius em tom desafiador.
A primeira carrocinha foi vencida com facilidade, o aroma dos temperos invadindo os narizes do grupo que acompanhava aquele duelo singular. Na terceira carrocinha, que ofereceu o cachorro quente com duas linguiças, Sibelius, ao final da iguaria, exibiu o guardanapo que envolvera a vítima já liquidada. Havia duas ervilhas nele. Sibelius lambeu-as e mastigou ruidosamente, exibindo a força de seu apetite interminável. Notoryus, que mastigava calmamente o seu, exibiu o guardanapo intocado, o olhar dizendo que era assim que um verdadeiro duelista se comportava.
Quando o décimo cachorro quente foi consumido, a platéia suspirou ruidosamente, revelando uma ansiedade que nem mesmo o clássico de Hitchcock conseguira despertar. Os desafiantes olharam-se e Notoryus propôs:
— Iniciamos o segundo turno?
— Por que não? — respondeu Sibelius com um sorriso que dizia que seu oponente ainda não vira o melhor de seu desempenho.
A quantidade final de cachorros consumidos é contestada até hoje. Os mais conservadores falam em dezoito, mas há os que afirmam que o total ultrapassou vinte e seis por desafiante. O certo é que em determinado momento Sibelius anunciou, o rosto envolto em um suor gorduroso, a respiração ofegante:
— Parei.
Notoryus que terminava de mastigar um pedaço de pão onde folhas de salsa haviam ficado presas sorriu, depois caminhou até a próxima carrocinha e falou:
— Um completo e uma Cola-Cola bem gelada.
Sibelius retirou-se em silêncio e não apareceu por dois dias na faculdade. Boatos circularam de que ele passara mal e precisara ir ao hospital após a batalha. Outros afirmavam que fora apenas uma diarréia resultante do excesso. Seu oponente após o derradeiro cachorro quente, convidou alguns amigos para tomarem uma cerveja e refletirem sobre o que ele definiu como “a obra-prima do Mestre do Suspense” e na segunda-feira estava a postos em sua cadeira na sala de aula. Nunca comentou a façanha, mas também nunca mais foi desafiado. A derrota de Sibelius deu início a lenda. Até hoje há uma certeza nos corredores do curso de música:
Jamais houve alguém como Notoryus Glutão.

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